Mercúrio

29 de dez de 2008












O sol queima, como se estivesse a poucos quilômetros. Um menino corre pela estrada seca, levantando poeira em direção à luz que castiga. Ele é veloz. Seu nome é Herminho. O calor não o preocupa, ele parece estar acostumado ao suor que lhe escorre pelo rosto. Aquele é o único mundo que ele conhece; seco, quente, desolado.
Herminho não gosta de dar más notícias, mas os moradores da região acostumaram-se a tratá-lo como um mensageiro. E ali estava ele novamente, correndo em direção à casa de Dona Esperança para dar o recado. Como dizer a ela que estava tudo perdido?
Ele se aproxima com seus pezinhos magros cobertos de poeira. Dona Esperança espera à porta da casinha feita de barro. Ao vê-lo, seu coração dispara. Ela se agarra ao xale preto, cruzando as mãos sobre o crucifixo pendurado sobre seu peito. Herminho chega cabisbaixo, segurando o chapéu com ambas as mãos, sem ousar olhar nos olhos de Dona Esperança.
Eles não se falam, não é necessário nenhuma palavra. Uma lágrima sinuosa passeia pelo rosto da mulher, misturando-se ao suor que brota dos seus poros. A lágrima cai e o chão ressecado a absorve, vagarosamente, como se o sal daquela gota fosse o mais puro e adocicado mel.
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Vênus

19 de dez de 2008













Quente! O calor do sexo a devora. Os gemidos e as contorções de prazer do seu parceiro são o seu maior gozo. Ele a aperta contra seu peito e sussurra seu nome, entrecortado pela respiração ofegante: " Dalva, Dalva!" Ah! como é bom ser desejada!
Mas isso não é suficiente. Todos precisam ser dela de corpo e alma. Ela olha nos olhos do macho dominado, esperando a resposta que todos deram, a resposta que a transformará em sua dona: Então ela faz a pergunta: " Você me ama?" O homem ofegante abre os lábios. Ela fecha os olhos esperando a doce palavra de submissão. Mas a resposta abre seus olhos violentamente como um vulcão: " Não!"
Nos dias seguintes, ela sente-se como se uma de suas faces estivesse voltada para o sol e a outra de costas para ele. Dias de calor insuportável no corpo e de frio desesperado na alma. Todos a amavam. Como alguém a quem dera tanto prazer poderia rejeitá-la daquele jeito? Ela o odiou com todas as suas forças. Maldito homem! Maldito desprezo!
Foi ao espelho. Observou seus olhos, seus lábios vermelhos, seu corpo de deusa. Era linda como a estrela da manhã. Tentou ver mais fundo, penetrou a própria alma , quebrou todos os escudos e chegou ao interior de seus próprios pensamentos.
Caiu ao chão, desesperada. Chorava compulsivamente com as mãos cobrindo o rosto. Ela sempre sentiu a necessidade de ser amada por todos. O orgulho e a vaidade alimentavam o fogo que queimava em seu interior. Agora, que estava só, descobriu a mais terrível e avassaladora verdade. Ela não se amava.
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Terra













Ela tinha vários filhos. Todos diferentes entre si, mas igualmente amados por ela. A cada um deles ela deu casa, comida e amor; até que eles cresceram.

Os filhos queriam dominar a mãe completamente. O que ela lhes dava não era suficiente. Eles sabiam que ela poderia dar mais. Começaram a brigar entre si pelas suas riquezas.

Ela não aguentava mais, estava fraca e decepcionada com seus filhos. Começou a se enfurecer para que percebessem que a estavam levando ao colapso. Não adiantou. Pobres filhos insensatos!

Ela morreu agonizando. No último instante de vida, ela dirigiu-lhes o olhar e sussurrou: " O que será de vocês sem mim?" Ajoelhados ao seu redor, eles olhavam o sangue que cobria suas mãos e choravam pela última vez, não por ela, mas por eles mesmos.

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Marte

16 de dez de 2008













No dia 19 de Julho de 1014, o imperador de Bizâncio, Basílio II,mandou furar os olhos de 14.000 soldados búlgaros. Era uma vingança contra Samuel, rei da Bulgária e único homem a derrotar Basílio II em uma batalha. Um a cada cem soldados foi deixado com um olho para poder guiar a multidão de cegos de volta à capital da Bulgária.
Foi uma visão dantesca, 14.000 homens sendo conduzidos por guias de um olho só. Ao ver essa procissão de cegos a que se reduzira seu exército, Samuel entrou em colapso e morreu dois dias depois. Seu exército havia se transformado apenas em uma fonte de despesas e vergonha para seu reino.
Um dos soldados que havia sido deixado com um olho, relatou o que sentiu enquanto esperava os algozes de Basílio II perfurarem seus olhos.
"Horror indescritível, era como se estivesse no inferno. Via os homens alinhados tendo seus olhos trespassados pelas espadas inimigas. Ao meu lado, meus companheiros tremiam e oravam. Eu imaginava se seria um dos escolhidos para permanecer com um olho. E não sei se isso seria uma benção ou uma maldição. Ao chegar minha vez, senti minhas pernas tremerem, mesmo estando de joelhos. Um dos meus olhos foi atravessado. Senti o sangue cobrindo minha face. Olhei para o céu, queria ter a oportunidade de ver a luz do sol pela última vez. Tive uma sensação estranha. Era como se o sol tivesse se tornado vermelho. Ao perceber que um dos meus olhos havia sido poupado, achei que tudo voltaria ao normal com o passar dos dias. Mas mesmo agora, quando olho para o céu, uma luz vermelha e sem vida inunda minha visão. É como se todo o mundo estivesse banhado em sangue."
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Júpiter

12 de dez de 2008












A imensidão sempre me atraiu. Sempre imaginei que eu estava predestinado ao colossal, à magnitude do universo, ao infinito. Por isso parti em busca da sabedoria suprema, do conhecimento que poderia me tornar imenso como meus sonhos.
Descobri então que o maior sábio da humanidade morava na China, em um grande templo, localizado na maior montanha de uma enorme cordilheira. Não era de se estranhar. Era normal que o maior sábio de todos morasse no maior e mais populoso país do mundo. Enfrentei enormes perigos e demorei muitos anos, até que um dia cheguei à casa do mestre.
Como foi imensa minha decepção. Era uma casinha insignificante e pobre no meio da grandiosidade das montanhas. E minha decepção aumentou ainda mais quando vi o grande sábio. Era um homenzinho raquítico, quase um anão, nem mesmo suas barbas eram longas, tudo nele era pequeno e frágil. Mas não desanimei. Perguntei a ele como poderia obter a grande sabedoria do universo.
O velhinho sorriu, com a calma típica dos grandes sábios e mandou que eu me deitasse de bruços no chão. Então, ele pediu que eu olhasse. Vi um mundo ao qual eu não conhecia: formigas trabalhando, folhas caídas no chão, gotas de orvalho e grãos de areia. Ele pediu que eu observasse bem, pois ali estava toda a sabedoria do universo. Percebi que eu era menor do que aquele pequeno mundo. Fiquei ali, paralisado perante a descoberta. Através do minúsculo, encontrei finalmente a imensidão.
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Saturno

8 de dez de 2008












Ele não tinha dúvidas, estava desenvelhecendo. Suas rugas diminuíam a cada dia, seus cabelos retomavam a cor original, sentia-se mais forte e saudável. Cada dia que passava, ele se tornava mais jovem, enquanto os membros de sua família continuavam envelhecendo. Um horizonte de possibilidades abriu-se diante dele. Ele seria jovem novamente, jovem e experiente. Ele já sonhava com a fortuna que poderia fazer, com as noites de diversão cheias de entusiasmo juvenil. O tempo estava ao seu lado.
Porém, sua família começou a se preocupar. O que seria dele quando todos eles morressem? Se continuasse a rejuvenescer onde ele iria parar? O novo jovem irritou-se. Estavam com inveja de sua situação, tinham medo que ele dominasse tudo o que a juventude lhe oferecia. Ele devoraria os próprios filhos se precisasse. E foi isso o que ele fez, matou-os um a um: filhos, esposa, pai e mãe. Apossou-se de todos os bens da família e viajou pelo mundo, curtindo sua juventude retroativa. Era um jovem lindo, exuberante. Encheu-se de anéis para adornar seu esplendor. Porém, suas relações eram efêmeras, pois seu corpo não condizia com seus pensamentos.
O tempo estava contra ele. Ele se tornava cada vez mais jovem em menos tempo. Rejuvenescia anos em semanas, desesperou-se. Era um menino sem ninguém, um velho preso ao corpo de uma criança. Todos que conhecera durante sua vida haviam envelhecido ou morrido. Os intervalos entre as fases foram diminuindo cada vez mais. Em apenas um dia, ele passou de criança a bebê, transformou-se em feto, dividiu-se em óvulo e espermatozóide e desapareceu para sempre da existência.
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Urano

4 de dez de 2008











Quando ele era criança fazia os próprios brinquedos, pois os seus pais não tinham dinheiro para comprá-los. Mas ele não construía carrinhos; ele preferia aviões, helicópteros e foguetes. Seu sonho de criança era voar. Na véspera de natal, após um ano cheio de dificuldades, seus pais o perguntaram o que ele queria ganhar de presente. O menino não hesitou: - eu quero ganhar um livro.
... todos diziam que ele não iria conseguir. Seu projeto para a feira de ciências da escola era muito ambicioso: um pequeno foguete. Ele era um adolescente sonhador, passava horas olhando para o céu, como se quisesse possuir as estrelas. Aquele projeto seria o primeiro passo, ele queria tocar o céu. No dia da apresentação, todos ficaram boquiabertos. Seu foguete vôou em direção ao azul. E os sonhos do rapaz voaram juntos com ele.
... o visor não escondia o seu sorriso, e a falta de gravidade não o incomodava; ele flutuava. Ao seu redor, somente a escuridão do espaço e o brilho distante das estrelas, pontinhos ínfimos no universo. Em meio à escuridão, ele procurava o azul do céu, o céu que ele sempre quis encontrar. Diante dele estava a Terra, um globo revestido de azul. O jovem astronauta sorriu. Ele sempre quis chegar ao céu, e agora o céu estava abaixo dele.
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Netuno

1 de dez de 2008











Era uma vez um peixinho que vivia no fundo do mar. Como todos da sua espécie ele não se arriscava a sair dos limites do seu território, pois ali ele tinha tudo o que precisava: comida, abrigo, família e amigos.
Mas o peixinho gostava de pensar. Onde será que acabava o mar? Que mistérios haveria em águas distantes dali? Então, abandonou o cardume e saiu em busca de aventuras. O peixinho nadou para muito longe, descobriu novos lugares, novos peixes, plantas e animais aquáticos que nunca imaginara existir.
O peixinho viu então o quanto era pequeno e insignificante perante o mar, se sentiu constrangido e humilhado. Então, ele resolveu desafiar as águas e seus perigos, pois se ele havia chegado até ali, podia ir além. Ele queria descobrir o que havia acima do oceano. Diziam que era um lugar maravilhoso, que o mar não era nada comparado à beleza da superfície (era assim que chamavam o mundo desconhecido).
Depois de muitos esforços, finalmente um dia o peixinho alcançou a superfície. Vocês não imaginam a surpresa que ele sentiu ao perceber que lá ele não podia respirar. O peixinho então sentiu saudades do seu lar, da água que sempre havia lhe oferecido oxigênio, alimento e proteção; e entristeceu-se por tê-la desprezado tanto.
O peixinho retornou e desde aquele dia passou a cuidar melhor de sua casa, pois era a única que ele tinha. Porque ele sabia que lá em cima, fora do mar, nenhum peixinho podia respirar.
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