Último ato- cena única

30 de ago de 2010















Não sou Romeu nem Hamlet
Nem trágico nem representável
Minhas palavras são secas e isentas de dramaticidade
Nunca tive graça alguma
Sou buritizeiro seco sem frutos de qualquer espécie
Minha foto é uma paisagem do cerrado
Meu romantismo vai até onde minha razão se impõe
E minha razão é minha inimiga
Aliada do tempo
Sou duro como um poema de Melo Neto
Estou entre Ramos e Rosa
Nem um nem outro
Decido o que minha indecisão decide
Às vezes enxergo o que imagino ser real
Às vezes enxergo apenas o que imagino
Ontem, o ontem aproximou-se e disse-me umas verdades
Que há muito tempo eu não queria ouvir
Fui obrigado a concordar com o sermão
As palavras fixaram-se em minha mente como um encosto
E elas sopram todos os dias em meu ouvido
O seu veneno de realidade
Nunca fui Macário e nem tampouco Fausto
O demônio nunca foi meu companheiro
Falta eloquência e verdade em minhas palavras
Meu paraíso não tem flores meu inferno não tem chamas
Mas às vezes gosto de gritar
Apenas para ouvir o silêncio em resposta
O que dizem de mim não é o que dizem de mim
E eu percebo o que não foi dito
O reflexo no espelho não me diz nada
Eu não sou a imagem de mim que penso ver
Eu não sou a personalidade que penso ter
Não sou por dentro nem por fora
Tenho acesso aos dois lados da notícia
O lado que é mentira
E a mentira que se tornou verdade
Por isso não enxergo nada à minha frente
Prefiro ver o interior
Onde a realidade está encarcerada com correntes cegas
Enferrujadas pelo tempo
Não sou Próspero nem Miranda
Minha tempestade vem sem que eu a invoque
Não vi apenas o mundo de Caliban
Nem tampouco Caliban no mundo
Termino o que faço não por vontade própria
Mas sim por que tudo precisa terminar
O fim é inevitável
Talvez não necessário
Mas como saber
Se agora é o fim
Apenas deixo como registro
As minhas verdades as quais eu próprio não acredito
E as possíveis definições vazias
De tudo o que eu não sou.

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