Discurso sobre a inutilidade da arte

5 de jul de 2012












Eu estava sentado em uma lanchonete esperando o horário do meu ônibus partir. Como ainda faltava muito tempo, resolvi rabiscar o rascunho de alguns poemas só para me distrair. Nem prestei atenção ao homem que se sentou ao meu lado. Ele, por sua vez, parecia estar um pouco incomodado comigo, pois não conseguia desviar os olhos do bloco de notas onde eu escrevia meus protótipos de poemas. Por fim, pegou um jornal e começou a ler, ou melhor, a tentar ler. De minuto em minuto ele olhava por cima  ou pelo lado do jornal, atraído pelo meu ato solitário de escrita.

De repente, como se não aguentando mais aquela tortura, o homem bateu o jornal sobre a mesa e indagou de forma enfática. “Por favor, não há nada  melhor que possa fazer ?” Eu nunca considerei meus textos como grandes obras literárias, mas não pude deixar de me sentir ofendido. “São apenas rascunhos, meu senhor.” Respondi.  “Acho que você não entendeu. Não disse para você fazer poemas melhores. Pois não existem poemas melhores. Para mim tanto faz os seus poemas ou os poemas de  Drummond. São todos inúteis.” Bem, não era a primeira vez que eu encontrava alguém que não gostava de poesia. O que me surpreendeu foi a enxurrada de argumentos que se seguiu. O homem desandou a falar como um pregador. Suas ideias eram  tão inusitadas, que de certa forma me atraíram. Como eu tinha tempo resolvi escutá-lo. “A literatura  não serve para nada. É inútil. Os literatos são um bando de parasitas que não acrescentam nada à sociedade. Toda a obra literária mundial reunida não tem  o valor da descoberta do transistor. A ciência, meu caro, essa sim é uma atividade digna da humanidade.”

Enquanto eu escutava, comecei a prestar atenção na fisionomia do meu palestrante pessoal. Ele vestia terno e gravata, carregava uma maleta entupida de papéis que exibiam suas pontas pelas bordas da valise. Reparei que havia muitos números e cálculos  complicados nesses papéis. Ele  continuou a falar. “Mas não pense que a literatura é o único erro da humanidade. Veja isto”. Ele apanhou o jornal e abriu na página de cultura. Havia uma reportagem sobre a exposição de réplicas dos clássicos da pintura universal. O jornal trazia a gravura de algumas dessas  pinturas. “A pintura deveria ser para crianças.” Dizia ele. “Não, nem mesmo para crianças. Seria retirar dos cérebros a capacidade de criar algo verdadeiramente útil à sociedade. Quem são os mais importantes? Médicos, engenheiros, advogados ou... pintores? Façam-me o favor. Veja isto.” Ele apontava para o auto-retrato de Van Gogh. “Era um louco. Cortou a própria orelha. E esse outro...” Dessa vez mostrou  a foto de Salvador Dalí. “ Era um palhaço. Veja o bigode ridículo dele. E ainda são idolatrados! A arte não traz benefício a ninguém, a não ser aos artistas. Eles ganham dinheiro vendendo inutilidades. As pessoas  compram arte e fingem entender sobre ela, apenas para parecerem importantes . Mas o que há para entender? Os teóricos da arte criam inúmeras suposições sobre a interpretação das obras. Eles também são uns inúteis. São aproveitadores assim como os artistas. A literatura e a pintura têm o mesmo valor da música, ou seja, nenhum. Até hoje nunca consegui ouvir àquele emaranhado de sons ao qual chamam de sinfonia e nunca conheci ninguém capaz de ouvir. Qual o sentido daquelas enormes e chatas composições? E quanto à  música popular? Serve apenas para desviar a atenção da população do que realmente interessa . A música é para vagabundos.”

Ele apontou novamente o jornal e completou. “ Isso sim é útil. Informação é o que precisamos. A imprensa é o veículo das idéias, o meio mais eficiente de levarmos ao mundo o que nós pensamos.”

Enquanto  ele segurava o jornal, observei uma reportagem sobre a ocupação americana no Iraque ao lado de uma reportagem sobre o aniversário da morte de John Lennon . “ Pois então lhe digo, meu jovem. A arte é uma enganação, uma inutilidade. Música, pintura, poesia, dança, teatro, cinema, todas  inúteis. A política, essa sim é a  salvação do mundo. O que seria de nós sem ela? Me diga! Não teríamos organização. O mundo seria um caos, uma anarquia. Por isso, meu filho, faça algo melhor. Escreva discursos políticos . Pois como disse alguém, a quem não me lembro o nome agora, 'A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.' ”

Ele se levantou e foi embora carregando sua maleta e sua cabeça cheia de utilidades. Ainda faltava algum tempo para meu ônibus partir. Eu poderia pedir que ele ficasse e tentar defender a arte de alguma forma. Mas eu achei que a própria arte já havia se defendido muito bem. Peguei meu bloquinho de notas e continuei rabiscando meus poemas.