A estrada e a passarela

19 de mar de 2008














WASLEY VIANA

Havia uma estrada muito deteriorada e velha. Automóveis iam e vinham em alta velocidade, ziguezagueando, tentando evitar os buracos que se encontravam no caminho.

Um homem de terno e gravata, segurando uma maleta preta, parou no acostamento. Olhando para os lados, ele viu que a vários metros à frente havia uma passarela em ótimo estado cruzando a estrada. O homem franziu os sobrolhos e disse: - A passarela está muito longe e eu estou muito atrasado. Vou passar pela estrada, resolveu ele.

Um velho mendigo que passava pelo acostamento percebeu a intenção do desconhecido e , aproximando-se dele, tentou impedir. - Por que você não vai pela passarela? Perguntou o velho. - Porque ela está muito longe e estou atrasado. Indo pela estrada, corto a volta e vou direto, chegando assim, mais rápido ao meu destino. Respondeu o homem, fitando enojado a aparência daquele pequeno, raquítico e imundo velho, vestido de trapos.
- Fazendo isto, você sabe muito bem o quanto está se arriscando à toa. Basta você dar mais alguns passos extras em direção a passarela e atrasar-se um pouco mais e certamente chegará ao seu destino sem ter passado nenhum perigo. Disse ele. - Às vezes para chegarmos aonde queremos é preciso correr riscos, meu senhor. Falou o homem, com rispidez.
Enquanto conversava com o velho mendigo, o homem de terno e gravata abriu sua maleta preta e retirou dela uma venda, também preta, e cobriu os seus olhos. Agora, ele não podia ver o velho, a estrada ou qualquer outra coisa. O homem estava completamente cego.
- Não! Não vá por esse caminho! É perigoso! Gritou o velho, estendendo uma de suas mãos enrugadas e sujas, enquanto observava o indivíduo se afastar, andando cegamente, alheio aos perigos da estrada velha e caótica. Enquanto atravessava a estrada, o homem de terno e gravata escutou apenas o ruído de uma freada brusca, para logo em seguida sentir algo enorme colidindo com o seu corpo e inundando de dor o seu sistema nervoso. O impacto do veículo contra ele fez com que a venda que cobria os seus olhos se soltasse, fazendo-o enxergar novamente.
Estendido no chão sujo, o homem permaneceu vivo durante alguns longos segundos e pôde ver o erro que cometera ao escolher o caminho que aparentava ser o mais fácil. Com uma lágrima brilhante que nem chegou a escorrer, o homem de terno e gravata, com a sua maleta preta jogada ao chão, nem chegou a fechar os olhos quando morreu.
Os transeuntes que passavam na hora do acidente reuniram-se em volta do corpo massacrado e ensanguentado do morto. Chocados com a cena, mas acostumados com as tragédias que ocorrem na sua cidade.
O velho olhou apenas mais uma vez para o corpo e foi-se embora, num passo moroso e tranqüilo, assobiando, em direção à passarela.

2 comentário(s):

Wesley Viana disse...

O autor desse conto é o meu irmão, Wasley. Eu gosto muito dos contos dele e, em breve, estarei publicando outros aqui.

Wesley Viana disse...

Esse conto se parece muito com um conto meu chamado "A esquina". Porém, o meu conto fala justamente dos riscos que precisamos assumir para evoluirmos, enquanto o conto do Wasley fala do perigo de percorrermos caminhos desconhecidos e perigosos. De qualquer forma a intertextualidade existe.