Não sorria!

19 de fev de 2009













Assim que abriu a porta do seu apartamento, João passou a ser filmado pela câmera do 6º andar. No elevador, foi filmado juntamente com outros moradores, que também sempre saíam naquele horário. Foi para o estacionamento. A câmera de segurança o filmou entrando em seu carro as 7:15 e, as 7:18, a câmera na portaria do prédio o filmou deixando o condomínio.
João passou devagar por um trecho monitorado por uma câmera contra excessos de velocidade. Antes de chegar ao trabalho, foi filmado pela câmera da padaria onde sempre tomava o seu café. No prédio onde trabalhava, foi filmado diversas vezes pelas câmeras de segurança, em vários ângulos, durante vários momentos do dia. A primeira câmera que o filmava quando entrava era a mesma que o filmava quando saía.
A câmera da portaria de seu prédio o filmou chegando em casa as 18:20, como de costume. A câmera do estacionamento registrou o momento em que ele deixou o carro. No elevador, a câmera o filmou assobiando tranquilamente até chegar ao 6º andar. A câmera de segurança no corredor o filmou entrando em casa exatamente as 18:29.
João assistia a uma reportagem no telejornal. A transmissão acontecia em um local próximo ao seu trabalho. Ele pensou: “Puxa, alguns minutos de atraso e eu teria aparecido na televisão. Por isso que é bom a gente sempre estar elegante.” E deu uma piscadinha para uma câmera imaginária.

Rosa verdadeira

17 de fev de 2009












Regina amava Daniel. Porém, ele a via apenas como sua melhor amiga. E para piorar a situação, Daniel estava apaixonado por uma amiga de Regina e vivia pedindo para ela dar uma forcinha. “ Um drama típico de novela”, pensava ela.

Em um belo dia de primavera (era realmente um belo dia de primavera, não é apenas para dar clima à história), os dois estavam sentados em um banco no parque da cidade. Daniel finalmente fez uma pergunta relacionada à Regina e não à sua amiga. “Uh, demorou! Até que enfim ele reparou em mim.” Pensou ela, já cansada da cegueira do seu “grande amor”. Daniel perguntou se Regina já havia tido algum namorado antes. (Desculpem meu descaso, esqueci de dizer que os dois eram adolescentes. Assim a pergunta dele não parecerá idiota.)

Regina explicou que uma vez namorou um cara que ela gostava muito. Porém, um dia, ele a presenteou com uma rosa. depois disso, ela se desinteressou e terminou o namoro. “Como assim?” Perguntou Daniel sem entender. “Era uma rosa de plástico. Como alguém que ama pode dar uma rosa de plástico? É sinal de que o amor também é falso. Quem ama de verdade dá uma rosa verdadeira.” infelizmente, o papo terminou por aí. Daniel voltou a falar da outra e Regina voltou à sua tristeza habitual.

Mas algo estranho começou a acontecer com o rapaz. Ele não parava de pensar em Regina e no que ela lhe disse. O rosto da menina sempre aparecia na sua mente nas horas em que ele menos esperava. Fazia duas semanas que ele não a via, não conseguia contactá-la pelo celular nem por e-mail ou msn. Já estava decidido a ir procurá-la quando alguém bateu à porta. Era um carteiro com uma encomenda para Daniel. Junto com o embrulho, havia um bilhete de Regina. Ela havia se mudado com a família a uma semana, não escreveu o endereço de sua nova casa, a correspondência estava com o endereço antigo. Era um bilhete de despedida.

Daniel ficou abalado, entrou em casa sentindo um vazio crescendo dentro do seu peito, abriu o embrulho aos poucos, sem conseguir tirar a imagem de Regina de sua mente. Ao ver o que era, suas mãos tremeram. O cheiro doce espalhou-se vagarosamente pelo ar. Era uma rosa verdadeira.

O bem e/ é o mal

13 de fev de 2009




Cubra
o
sol
e as sombras

sumirão

microconto

11 de fev de 2009













Dois amigos conversam:

-Veja só essa imensidão! Às vezes fico imaginando como o mundo é vasto. Tudo funciona tão perfeitamente como se um ser inteligente estivesse por trás de tudo.

- Mas é justamente isso o que dizem, e vão mais além; dizem que o universo em que vivemos pode ser um enorme ser vivo.

- Você está brincando...

- Não! E dizem também que a nossa presença aqui afeta o equilíbrio orgânico da criatura, podendo levá-la até mesmo à morte.

- É difícil de acreditar. E se ele morresse? O que seria de nós?

- Não sei, mas dizem que existem milhões de universos vivos iguais a ele, todos habitados por seres iguais a nós.

- Bem, chega de tolices! Acabei de ver uma molécula de glicose prontinha para ser capturada.

E as duas bactérias saem, balançando seus flagelos.

Tinta etérea

9 de fev de 2009











Não se deveria escrever no papel,
nem tampouco na tela de um computador,
as palavras que gostaríamos que lessem.
Deveríamos escrevê-las diretamente no coração de quem lê,
para que ali ficassem grudadas para sempre aos seus sentimentos.
Deveria-se escrever nas mentes e nas almas
dos que estão adormecidos;
ler alto o discurso camuflado
dos que não querem ser entendidos.
As palavras deveriam ser traçadas em sangue
e escritas com ferro em brasa,
para que, ao morrer, as levássemos conosco;
misturadas à nossa essência, encravadas em nossa alma.