O Assinalado

8 de jun de 2009







“ Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas pouco a pouco.”


Foste tu que me escolheste, Poeta? Ou foi a própria beleza do mundo que me elegeu seu protetor? Ah! O mundo é lindo como a capa vermelha de teu livro, é lindo como nossa casa. Não podemos deixar que nada o contagie. Veja, Poeta! Minhas rosas vermelhas floresceram na janela. Tão lindas! O cheiro delas é tão doce quanto tua poesia. Sente? Sente o cheiro da minha casa? Ah, me dá vontade de dançar. Mas estás me chamando, Poeta? Perdoe-me, estava tentando me dizer algo. Sempre está. Eu sou o Assinalado. Eu tenho uma missão em prol da beleza. A capa vermelha me atrai, o teu livro me chama. É naquele poema que me dizes, Poeta; eu sei. Mas ainda não consegui compreender-te.


“ De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho...
É tão claro!- e turva tudo:
honra, amor e pensamento.”

Agora vejo o que queres.


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Lá está ele, Poeta; saindo do banco com seu terno limpo e sua valise cheia de papéis considerados importantes. Aposto que ele não gosta de poesia. Ele ama apenas o dinheiro, Poeta. Ele ama apenas o poder. Um banqueiro, um assassino da beleza do mundo. Como isso dói! Esse ar tão puro da cidade, essa noite tão poética em meio aos arranha-céus e aquele patife estragando tudo em nome do dinheiro. O ouro deveria pertencer à natureza. Vamos segui-lo, Poeta. Ele está tão seguro de si. Ele acha que o seu dinheiro irá protegê-lo de sua punição. Eu sou o cirurgião que extirpará esse câncer do mundo. Eu sou o Assinalado.


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Veja como ele grita, Poeta. Vamos, grite pelo seu ouro, pelas suas riquezas! Não tente me subornar, eu não quero seu maldito dinheiro. Quero apenas que você expurgue seus pecados. Olhe para suas mãos jogadas no chão. Sem elas, você não poderá pegar o seu precioso dinheiro, o ouro que você arrancou do mundo. Como? Deus? Agora você grita por Deus? O seu deus é o dinheiro, hipócrita! Acho que arrancar suas mãos não foi o suficiente para fazê-lo enxergar suas heresias. Não vê a beleza do sangue? O vermelho... É a capa do livro, Poeta. Esse vermelho é tão lindo. Você quer mais, Poeta? Dê-me o serrote, vou cortá-lhe os braços. Não grite, imundo! Ninguém pode ouvi-lo aqui. Apenas ouça o Poeta. Você verá o verdadeiro mundo.


“ O mundo vai mudar de cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.”


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Estamos na tevê novamente, Poeta. Nos chamam de assassinos, serial-killers. Não veem que você é um artista e que eu sou o Assinalado. Encontraram os pedaços do banqueiro e estão estranhando porque não levamos nada da casa, nem os cartões de crédito, nem o dinheiro. O mundo ficou mais bonito sem ele, Poeta. Ficou mais bonito como eu, como você, como nossa casa e a tua poesia... Adoro passar a mão sobre a capa de teu livro, é macia, sua textura me acalma. É aquela poesia, eu sinto que é aquela poesia. Eu marquei a página com uma rosa, Poeta; recite-a...


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Veja como ele sofre. Tenho reparado durante semanas. O padre se ajoelha diante da imagem de Cristo sempre no mesmo horário, todos os dias. Ele se sente culpado pelo sofrimento de Jesus. Se esse padre escrevesse uma poesia, ela seria tão dolorida, Poeta! Talvez fosse bonita. Mas ele se contenta apenas em sofrer resignadamente. O sofrimento é belo, mas não o suficiente. Foi isso o que você me disse naquele poema. A morte é mais bela.


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Que imagem linda! O sangue verdadeiro descendo pela cruz do altar é mais poético do que qualquer imagem. Não se sente melhor cravado na cruz, padre? É o que sempre quis.


“A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.”


Sua culpa é tão linda, padre. Deves eternizá-la. Em breve, não deverás nada a Ele. Não, padre, não sou louco! Eu sou o Assinalado, o protetor da beleza do mundo. É o teu desejo, padre, sofrer por Ele como Ele sofreu por ti.


“A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados,”


Grite, padre! Farei o sinal da cruz em seu peito. Abençoei esse facão em sua água- benta. Seu sangue vai lavar sua culpa, sua morte o unirá a Ele.


“A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.”

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A morte do padre os chocou mais, Poeta. Mas o sofrimento dele é tão pouco se comparado ao daquela garota que lhe disse. Veja, ela senta-se todos os dias naquele banco. Deve ter uns dezessete anos, pura como uma musa romântica, pálida como a Morte. Linda! Ela não pode permanecer viva, Poeta. Sua lembrança fará o mundo mais bonito, inspirará a poesia. Uma deusa não pode andar entre os mortais.


“Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!”

Eu tenho a chave.


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O vermelho é tão lindo em sua pele branca. Mas agora vejo que não és inocente. Uma boca tão bonita expelindo palavrões tão rudes. Tu és um insulto à poesia. Queria elevar-te aos céus, maldita, por achar-te um anjo. Mas de qualquer forma deves morrer, para livrar o mundo de sua beleza falsa. Grite mais! Sei que não estás gritando apenas pela dor, mas sim porque estou retirando tua máscara. A faca está afiada, Poeta. Veja como a pele do rosto sai com facilidade. Grite, cadela!


“Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?”

Tu não tens coração, e para provar, vou trespassá-lo.


“ assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia; ”


Vês, Poeta? A falsa musa está morta. Já não é mais bela com esse rosto desfigurado. Somente a Morte agora embeleza esse bosque. O rosto da Morte é medonho, mas sua presença é bela, Poeta.


“ Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...”

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Dizem que seguimos um padrão, Poeta; que em breve seremos presos; que assassinos seriais sempre são capturados. Mas a ingratidão deles não me preocupa. Hoje eu estou tão triste que não me importaria em ser preso. Nem as minhas belas rosas poderiam me alegrar, nem o conforto do meu lar, nem mesmo tua poesia. Como dizes? Não serei preso? Sim, já estou com teu livro nas mãos, mas...
Me diga, Poeta; qual poesia me libertará?

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Hoje foi encontrado morto em sua própria residência, o assassino serial conhecido como o Assinalado. Esse assassino aterrorizou a cidade durante os últimos meses, escolhendo vítimas ao acaso e matando-as com requintes de crueldade. Suas últimas vítimas foram o famoso banqueiro Hernando Villas- Boas, o padre Jesuíno Santana da Cruz e uma jovem de dezessete anos chamada Marília Celeste dos Anjos. O assassino deixava fragmentos de poemas de grandes poetas brasileiros nos locais do crime, assinados com seu codinome- O Assinalado. Nossa equipe de reportagem acompanhou a polícia durante a operação de reconhecimento do local onde o assassino morava. Vejam as imagens.


Repórter- O local é um prédio abandonado cheio de mofo, lixo e entulho. Somente o assassino morava aqui, como tudo indica, nesse quartinho do segundo andar. Há um mau-cheiro terrível no local. Na janela, foi encontrado um vaso de rosas murchas. Apesar disso, parecia que ele as regava todos os dias. O assassino se suicidou na noite de ontem, cortando a garganta com uma faca. Ao seu lado, foi encontrado um bilhete com um verso:


“Vem, doce morte. Quando queiras.”


Os investigadores estão tentando contatar algum professor de literatura para saber se esse verso também é um trecho de algum poema. Ao lado do corpo do assassino, foi encontrado um livro. Trata-se de poesias diversas da literatura brasileira. O livro possui uma capa vermelha, sem título e sem indicação de editora ou data de publicação. Parece ser um livro impresso artesanalmente. Os peritos disseram que provavelmente era desse livro que o assassino retirava as motivações para seus assassinatos. O livro estava aberto em uma poesia. Os versos estavam sublinhados em sangue, como se o assassino estivesse passando o dedo sobre eles antes de morrer. Eis o trecho:


“ Não, não é louco. O espírito sòmente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.”


Não há o nome do poeta, assim como nas outras poesias. Estamos esperando o professor de literatura. A polícia também não conseguiu identificar o nome do assassino ainda, por falta de documentos e registros. Em breve voltaremos com mais notícias sobre esse caso no seu telejornal. Boa- noite.

Pétala

3 de jun de 2009












No auge do meu choro
flagelo-me
desfolhando flores

mal me quer
mal me quer...