Sociedade das formigas sem açucar

29 de abr de 2011





Nós te fizemos forte!

Não te lembras como eras? Um fracote, sempre com medo de tudo. Desde criança; apanhava na escola, na rua, saco de pancadas por vocação. Mas nós te demos uma opção. A opção de ser forte, de se vingar!

Não é nada muito difícil...
Bastam alguns desejos repetidos periodicamente e pronto! É o começo da ascensão. Você já está pronto para usar a escada feita de pessoas. É só procurar o melhor ponto de apoio, normalmente o rosto é o melhor lugar para se pisar. Mas se a subida estiver difícil, o coração proporciona uma bela propulsão. Sei que te lembras quando tua mão se tornou forte o suficiente para esmagar. Tu nos deve isso, ingrato! Nós te demos um terno à prova de balas, uma maleta repleta de vidas as quais tu podes controlar como bem queiras.

Nós te fizemos forte, um vencedor!

E agora o que é isso que vemos em teu rosto?
É assim que nos paga?
Como te atreves a derramar uma lágrima?

O transeunte

6 de abr de 2011











E aos poucos ele foi entrando na vida...
Sem perceber, sem questionar seu destino.
E surpreendeu-se, como se fosse a primeira vez
que estivesse acordado.
Tudo era bonito e camuflado.
Ele não via.

Caminhou preguiçosamente pela estrada florida
para retardar o fim do passeio.
Mas há caminhos que não vemos,
que parecem nos puxar
e nos tratar como uma piada.
Então entramos e nos perdemos
sempre.

E a nuvem se desfaz
E os olhos se abrem
derramando lágrimas presas.
E tudo o que vemos então
é um único caminho
o único que podemos seguir.

Reminiscências- parte final

3 de abr de 2011










Está tudo terminado: nossa juventude, nossa amizade e a farsa desta reunião. O que nós estávamos pensando? Que o passado poderia voltar? Que nossos sonhos e ilusões ainda estivessem vivos? Estão mortos tanto quanto "ele". Mas se é assim, porque tenho medo? Por que os olhos inquisidores de Bete me perturbam?

Já estamos todos alcoolizados, prometendo não nos separar, continuar mantendo contato, fazendo um pacto de amizade como se fôssemos adolescentes. Não aguento mais isso! É um alívio quando pagamos a conta e começamos a nos despedir. Eu olho para todos. Por que sinto esse aperto no peito, como se essas pessoas fossem importantes para mim?

Eu só quero ir embora e fugir do passado, antes que a Bete me acuse de algo. Ela se despede de todos e eu também. Quero sair sem que seja preciso me aproximar dela.

- Roberto.

Eu me viro e vejo todos indo embora, ainda se cumprimentando. Bete é a única parada diante de mim, calma, com um sorriso triste nos lábios. Como ela está bonita! Não há mais como escapar. Se ela tem algo a me dizer, que diga!

- Sim, Bete.
- Roberto, você conversou tão pouco comigo hoje.
- Conversei pouco com todos.
- Você costumava falar mais. 
- Mas os tempos agora são outros. O passado não me interessa mais.

Ela se aproxima e me olha nos olhos.
- Mas a mim interessa.

Tento não parecer amedrontado e espero.
- Há algo que preciso te dizer há muito tempo mas que nunca tive coragem.

Não há mais como fugir, estou encurralado. Eu respiro enquanto os olhos dela me fulminam. Ela abre os lábios e eu fecho os olhos.

- Roberto, eu sempre te amei...
FIM