Somewhere in time- parte cinco

28 de nov de 2014












Londres 1666 D.C

É noite. As ruas estão vazias em Pudding Lane. Um casal de jovens parece ignorar o risco dos assaltos. Eles andam despreocupadamente, abraçados, conversando e rindo alto. O rapaz carrega uma garrafa de vinho quase seca. Eles param perto da ponte de Londres, ofegantes e dando gargalhadas.
 
- Você é tão estranho, não acredito que seja daqui.
 
- São tão londrino quanto você. Responde o jovem tomando o último gole de vinho.

- Esses dias que estive com você foram maravilhosos. Você sabe tanta coisa.

- O conhecimento é tudo, Jane. Os poderosos sempre nos privaram do conhecimento porque sabem que isso pode os derrubar. É isso que procuro: o conhecimento total.

- Mas você já sabe tantas coisas, não precisa aprender mais nada.

- Você é tão ingênua, Jane. Olhe para as estrelas, pense no universo, como você acha que tudo isso foi criado? Esse é o maior segredo. O segredo que sempre nos foi privado e que um dia eu vou descobrir.
Eles ficam em silêncio por um instante. Pouco depois, o jovem olha para sua companheira com os olhos embriagados.

- Hoje é vinte e oito de Agosto.

- O quê?

- Dia dois de Setembro acontecerá algo terrível em Londres. Vá para a margem sul do Tâmisa um dia antes. Lá estará segura.

- Não posso fazer isso. A minha tia não vai concordar. Ela já está muito velha e não deixa a nossa casa para nada.

- Jane, não vai sobrar nada da sua casa. Se sua tia não quiser ir, vá sozinha, senão as duas morrerão.

- Você está me deixando com medo, o que vai acontecer?

- Não posso dizer. É perigoso demais.

Jane lembrou-se do dia em que o conheceu. Os olhos azuis e a inteligência do rapaz a conquistaram. Adrian era especial, diferente de todos os homens que ela havia conhecido. Ele parecia saber sobre tudo; às vezes, até mesmo sobre o futuro.

- Eu confio em você, Adrian. Você já acertou várias previsões antes. Chega a me assustar às vezes. Se eu fosse religiosa, diria que você tem um pacto com o demônio. Os olhos azuis do rapaz fitavam Jane com carinho.

- Gostaria tanto que você viesse comigo, porém isso é impossível.
Jane acariciou-lhe os cabelos loiros e disse algumas palavras. Adrian não a ouviu, pois prestava atenção em dois vultos que corriam em sua direção.

- Vamos sair daqui, Jane! São eles.

Jane nunca tinha visto os dois homens antes, porém, o rapaz já havia lhe falado sobre eles e sobre a possibilidade de eles aparecerem a qualquer momento em seu encalço. Jane imaginava que seu amante poderia ser um criminoso, mas ele a acalmou dizendo que os homens não eram da polícia, mas mesmo assim eram muito perigosos. Jane não era medrosa, vivia com a tia doente em uma humilde casa, trabalhava nas feiras e pintava quadros nos dias de folga. Chegava a vender alguns retratos e paisagens de vez em quando. Porém, ela não queria que nada de mal acontecesse à tia, por isso ficou com medo. Correram em direção a casa de Jane, passando por vielas para despistar os dois homens. Quando estavam próximos da casa, pararam.

- Acho que os despistamos. Não estou os vendo mais.

- Pois então vamos entrar antes que nos encontrem.

A moça abriu a porta e os dois entraram na humilde casa. A tia de Jane já estava dormindo. Foram para o quarto da moça que servia também de ateliê. No centro do quarto havia um quadro que a jovem pintara recentemente: um retrato de Adrian. O jovem percebeu que Jane estava preocupada. Ele a abraçou e beijou.

- Não quero que corra perigo por minha causa. Partirei amanhã.

- Não, fique comigo.

- Eu sou um viajante solitário, Jane. Mesmo que eu quisesse não poderia te levar. Eu sou um estranho em todos os lugares em que vou. Sinto tanta saudade de casa; às vezes acho que gastei todos esses anos por nada.

- Mas você é tão jovem, Adrian. Você tem todo tempo do mundo para alcançar seus objetivos.
Ele a fitou por alguns instantes.

- Sim, eu tenho todo o tempo do mundo, mas minha vida é feita de mentiras.

- Como assim?

- Não importa. O rapaz a abraçou novamente.

- Prometa que no primeiro dia de setembro irá para a outra margem do Tâmisa.

- Você disse que sua vida é feita de mentiras. Para eu acreditar, você precisa me dizer o que vai acontecer. Ele aproximou-se e disse algo no ouvido da jovem. Jane estremeceu, mas não teve tempo de dizer nada. Os dois perseguidores quebraram a porta do quarto e investiram contra os dois. O quarto foi destruído pela luta. No final, Adrian e Jane tinham sido subjugados.

- Finalmente o pegamos! Achou que poderia fugir para sempre?
Adrian não respondeu, pois surgiu uma chance para escapar. A tia de Jane apareceu no quarto, acordada pelo barulho. Ao ver a sobrinha segura por um dos homens desconhecidos, começou a gritar. Adrian aproveitou, desvencilhou-se do homem que o segurava e fugiu agilmente pela janela.

- Maldição, ele fugiu! Vamos atrás dele.

- Espere. Ordenou o outro, caminhando em direção ao quadro do rapaz, pintado por Jane.

- É o último item que procurávamos.

- Deixem meu quadro em paz, gritava Jane, amparando sua tia que havia desmaiado.

- Um dos homens pegou o retrato, enrolou cuidadosamente e colocou dentro da bolsa que carregava.

- Chegou o momento. Disse ele, misteriosamente para o outro.

- Sim, vamos ter que dar uma pausa na perseguição.

- Mas porque o chefe pediu para fazermos isso nessa data?

- Ele não disse, mas acho que é porque as anotações vão somente até aqui. Ele não quer arriscar. Ninguém sabe o que vai acontecer a partir de agora. Esse é o momento mais perigoso. Precisamos fazer uma última anotação, não podemos colocá-la junto com as outras mas talvez consigamos fazer com que ela chegue ao chefe de alguma forma.

Enquanto falava, o homem apanhou um objeto que Jane achou muito estranho. Logo após, começou a movimentá-lo no ar. Uma pequena luz vermelha piscou no objeto.

- Captei a movimentação quântica. Ele já foi, registrei o próximo destino.

Um dos homens começou a escrever em um papel que tirara da bolsa. Depois o deixaram em cima da mesa enquanto conferiam os outros papéis e objetos da bolsa. Jane aproveitou-se da situação e escondeu o estranho papel.

- Você viu se guardei as últimas anotações?

- Não sei, acho que sim. Não há mais nada por aqui.

- Então vamos, não podemos perder tempo. Os homens saíram sem se preocupar com Jane. Sua tia acordou logo em seguida, assustada. Jane a acalmou e disse que estava tudo bem por enquanto.

- Esses homens não vão mais nos incomodar. Estavam atrás de Adrian, e pelo jeito, nenhum deles vai voltar. Tia, amanhã temos que preparar nossas coisas. Precisamos sair daqui.

- Mas você disse que eles não vão voltar.

- Não é por causa deles. Vai acontecer algo terrível em breve, precisamos fugir.

A tia de Jane não entendeu nada, ficou resmungando enquanto Jane lia as anotações feitas pelos homens. A tinta e o papel eram muito estranhos, mas o conteúdo era mais estranho ainda. Havia palavras que Jane desconhecia completamente. Ela ficou com medo de que os homens voltassem para procurar o papel e o queimou na chama da vela. Porém, uma palavra ficou em sua mente, uma das palavras mais estranhas em meio a tantas outras. Ao dormir, Jane pensava em Adrian e pronunciava baixinho a palavra que se perdia aos poucos em meio à escuridão: Antártida... Antártida...
Continua...

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