Somewhere in time- parte dois

24 de ago. de 2014










Londres, algum lugar no futuro

Alexandre acorda assustado. Novamente a noite foi repleta de pesadelos. Ele olha ao redor para ter certeza de que está em casa. Sua mão faz um gesto e aciona à distância o teclado virtual do computador. O relógio tridimensional é projetado acima da cama, são dez horas da manhã. Alexandre aciona outro botão e inicia a programação do café-da-manhã. Ao chegar à sala um holograma é acionado; é sua mãe: “ filho, seu pai e eu fomos à casa de sua avó, retornaremos ao anoitecer. Hoje é domingo, divirta-se.” 

Alexandre já não se incomodava mais com os conselhos de sua mãe para que se divertisse. Ele tinha acabado de completar quinze anos e não fazia nada que os adolescentes comuns costumavam fazer. Os amigos de Alexandre gostavam de utilizar o simulador de realidade para várias coisas. Nos finais-de-semana eles o usavam para jogar, desde futebol até simulações de aventuras espaciais. Desde criança, Alexandre era diferente. Frequentemente, ele parava durante uma determinada situação e olhava ao redor, observando. Quando o perguntavam, ele dizia que tinha a impressão de que aquilo já havia acontecido com ele antes, ou que ele já havia estado naquele lugar. Mais tarde ele descobriu que aquela sensação se chamava deja-vu.

Alexandre foi aos poucos se tornando mais isolado, seus amigos de infância se distanciaram. Todos achavam que ele era autista, inclusive seus pais. Alexandre, por sua vez, não fazia questão de amigos, ele achava as pessoas simplistas demais, conformistas, presas em seus mundinhos fechados. Ele gostava de ler, era o melhor aluno da escola, embora fosse indisciplinado e irônico com os professores. Acabou fazendo alguns amigos, mas nunca houve uma amizade profunda e verdadeira. Enquanto eles usavam e abusavam do simulador de realidade, Alexandre gostava da realidade em si. Nas férias, ele gostava de ir aos poucos reservatórios ecológicos da Inglaterra e procurar espécies de plantas e animais praticamente extintos. Na escola, as sensações de deja-vu se aprofundaram. Durante as aulas de história, Alexandre sentia como se nomes e lugares históricos estivessem relacionados a ele, era como se algum dia ele tivesse estado naqueles lugares e era uma sensação maravilhosa. Porém, algumas coisas o assustavam. 

Os pais de Alexandre chegaram a achar que ele era esquizofrênico, pois desde os oito anos de idade ele comentava que era perseguido por homens estranhos que o vigiavam, comunicando -se entre si, como se estivessem vigiando seus passos. Seus pais chegaram a informar a policia e a contratar seguranças. Mas, a própria policia acabou abandonando o caso dizendo que se tratava da imaginação do menino e os seguranças, estranhamente, desapareciam ou pediam demissão e nunca mais eram vistos. O pior é que a medida que Alexandre crescia, ele tinha a impressão de que as perseguições aumentavam, que ele era vigiado durante todo o dia. 

Alexandre decidiu então compreender o que estava acontecendo. Ele sabia que para alguém com seu nível de inteligência não seria difícil descobrir; ele estava enganado. O que ele encontrou foi uma teia de mistérios e conspirações governamentais, lendas urbanas e artigos ridicularizados pela imprensa. Havia algo grande sendo encoberto, um segredo compartilhado por todas as nações do mundo, como um pacto de sobrevivência. Alexandre passou a dedicar sua vida a essas pesquisas. Ele descobriu vários códigos secretos na Internet que nenhum hacker comum seria capaz de descobrir. A cada descoberta ele ficava cada vez mais aterrorizado e extasiado ao mesmo tempo. Como a humanidade desconhecia todas aquelas informações? O que aquilo tinha a ver com ele?

O último pesadelo que Alexandre teve antes de acordar naquele domingo não foi como os outros. Ele costumava sonhar com o passado, mas dessa vez ele sonhou com o futuro, como se algo estivesse predestinado a acontecer com ele. No seu sonho, havia uma um artefato, semelhante a uma cápsula. Ele não conseguiria pesquisar esse assunto em seu computador particular. Alexandre tomou o café, deletou a holomensagem de sua mãe, pegou seu skate magnético e foi direto à ciberbiblioteca de Londres. Durante o trajeto ele observava os pedestres, homens e mulheres, pois já havia se acostumado a ser observado pelos espiões que, discretamente ligavam seus chip-celulares depois que ele passava. Ele começou a achá-los ridículos. Será que achavam que ele não percebia? Porém, durante os últimos dois dias, Alexandre não percebeu ninguém o vigiando. Era muito estranho, será que haviam desistido? Será que continuavam o vigiando, mas agora de uma forma eficiente? Ou pior, será que realmente não era tudo fruto de sua imaginação? Não, ele sabia que não estava louco.

Ele acessou um dos computadores da ciberbiblioteca pública, que estava quase vazia. Antes de efetuar o comando que daria acesso às informações proibidas, Alexandre hesitou e olhou ao redor, apesar de estar usando o modo “privado” das holomensagens interativas. Seus olhos arregalaram-se. Ele havia descoberto algo que iria transformar sua vida para sempre e talvez o mundo.

Continua...

Somewhere in time- parte um

26 de jul. de 2014













Conto inspirado no álbum "Somewhere in time"da banda inglesa de Heavy metal Iron Maiden. Publicado originalmente no site Mojobooks. Nessa republicação há pequenas mudanças e correções.


Grécia, 336 A.C

A comitiva real segue pelas ruas de Olinto, uma cidade no norte da Grécia. À frente, o jovem e recente rei cavalga imponente. Os que veem a comitiva passar se afastam e comentam uns com os outros. Eles nunca viram aquele rosto, mas todos já ouviram histórias sobre aquele jovem. Eles tremem ao vê-lo passar pelas ruas de sua cidade sem ao menos ter sido anunciado: Alexandre Magno, rei da Macedônia, rei da Grécia. 

As pessoas comentam umas com as outras enquanto a caravana dirige-se à casa de Dúris, um dos fazendeiros mais ricos de Olinto. Seria possível que Dúris conhecia o grande rei Alexandre, ou será que a visita do monarca não era uma visita cordial. Alexandre entrou, acompanhado apenas de dois de seus generais. Os curiosos nem ao menos ficaram sabendo que o motivo da visita não era Dúris e sim um de seus hóspedes. Dúris recebeu o rei emocionado e com medo ao mesmo tempo. Alexandre gostava de ver a reação que causava nas pessoas, mas acalmou Dúris e disse que vinha em paz. Quando disse o motivo de sua visita, Dúris finalmente entendeu. A fama de seu hóspede estava aumentando, embora ele não quisesse que isso acontecesse.

Alexandre foi levado até à sala da casa. Sentado em um dos divãs estava um jovem, aparentando a mesma idade de Alexandre. O rei pediu para que ficassem a sós. Alexandre sentou-se no mesmo divã e olhou com desejo para o jovem.

- Se é mesmo bom como dizem, já deve saber o motivo de minha visita.

- Sim, majestade. Creio que sairá daqui satisfeito e ao longo de sua vida comprovará que tudo o que eu disser terá sido verdade.

Alexandre o observou por um instante, tentando identificar o estranho sotaque do jovem.

- Pois então, oráculo, diga o que o futuro me reserva.

Alexandre ouviu tudo o que queria ouvir, inclusive coisas que até aquele momento ele havia guardado somente para si próprio, planos ambiciosos de conquista de um jovem que queria dominar o mundo. O oráculo disse que o nome de Alexandre, o Grande, se eternizaria. Ele dominaria o império persa e estenderia seu domínio até a Índia. O oriente cairia perante a força de Alexandre Magno. Era possível perceber o brilho de cobiça nos olhos do futuro imperador. Ele hesitou um instante antes da pergunta que o incomodava.

- E como eu morrerei?

O jovem vidente riu calmamente e olhou sem medo para o monarca.

- Sua morte não será tão gloriosa quanto a sua vida.

Alexandre não insistiu. O rei ofereceu riquezas e proteção ao jovem mas ele não aceitou.

- O que procuro está acima de todos os sonhos da humanidade e nem vossa majestade poderia me dar. Mas lhe peço uma coisa.

- Qualquer coisa que quiser. Disse o rei.

- Conquistarás o Egito e lá fundarás uma magnífica cidade. Tudo que lhe peço é que a chame de Alexandria.
- Uma homenagem a mim mesmo é tudo o que pedes?

O jovem sorriu novamente, aproximou-se de Alexandre e disse algo em seu ouvido. Alexandre sorriu.

- Agora entendo. Se o que dizes for verdade, sua vontade será satisfeita.

A comitiva partiu logo em seguida, mesmo com a insistente bajulação de Dúris para que permanecessem. Do andar de cima, o jovem oráculo observava. Ele havia se divertido bastante, mas agora era necessário partir. Sua notoriedade estava ficando perigosa. Depois dessa visita, os seus perseguidores descobririam rapidamente o seu paradeiro. Ele fechou os olhos, saboreando aqueles momentos regozijantes de vaidade saciada e pronunciou vagarosamente, sentindo o som de cada sílaba, o nome que o extasiava: "Alexandria".

Continua...

Feliz

29 de jun. de 2014











Não sei se é certo escrever a história de meu amigo Felizberto, pois tenho certeza de que vocês irão rir de sua tragédia. Durante toda a sua vida, eu fui o único que não riu das suas desgraças, de seu destino torto, das brincadeiras divinas a que ele era alvo. Mas eu não poderia deixar de contar tudo que presenciei. Foram acontecimentos tão inimagináveis que se não forem escritos por alguém que goze de certa credibilidade, ficarão restritos às histórias populares, como causos inventados pela imaginação do povo. Mas creiam, meus amigos, por mais improvável que seja, tudo o eu que contar realmente aconteceu com meu amigo Felizberto, o mais caipora de todos os homens que já caminhou pela terra.

Eu o conheci na escola, mais precisamente na quarta série do ensino fundamental. Achei estranho um menino tão velho como ele na quarta série. Felizberto tinha quatorze anos de idade enquanto todos os outros alunos tinham dez, inclusive eu. Rapidamente me tornei seu amigo. Nenhum dos meninos gostava dele, apesar de Felizberto estar sempre alegre e brincando com todos. Não demorou para que todos passassem a chamá-lo de “Feliz”, o que é muito contraditório, como vocês irão ver.

Eu imaginava que os garotos não gostavam de Felizberto devido ao fato de ele ser coxo, vesgo, banguela, magrelo e desajeitado, mas logo percebi que esse motivos eram os menores.

Com o estreitamento de nossa amizade, passei a frequentar a casa de Felizberto. Ele morava com a mãe, uma senhora até certo ponto simpática, apesar de estar sempre mal vestida, com os cabelos descuidados e os dentes podres. Ela me tratava bem, pois eu era o primeiro amigo de Felizberto e a primeira pessoa a entrar na cabana de madeira e palha em que eles moravam. Entendam bem, a primeira pessoa fora o agente da prefeitura que vinha de tempos em tempos fiscalizar a quantidade de ratos, pulgas e baratas que habitavam a casa. E entendam por “tratar bem” o fato de ela me convidar a sentar sempre na única cadeira existente na casa, uma cadeira dura e que deixava coceiras, enquanto eles se sentavam no chão. Além disso me serviam sempre um café amargo e ralo. Eu aguentava tudo isso por pena do meu amigo e da sua mãe. Muito tempo depois percebi que ela não precisava de pena, mas o meu infeliz amigo Feliz, ah! Esse sim merecia toda a pena do mundo.

Conversando com sua mãe, descobri tudo a respeito de Felizberto, desde o seu nascimento até àquele momento. A primeira coisa que descobri é que sua mãe havia sido uma meretriz em um bairro de classe baixa no interior do Estado. No exercício de sua nobre profissão ela conheceu o pai de Feliz, um bêbado sexagenário que sua mãe foi obrigada a aceitar em uma noite de freguesia escassa. Foi aí que o azar de Felizberto começou, pois devido a um acaso do destino o preservativo estourou e sua mãe veio a engravidar. O pai de Felizberto, ao qual sua mãe nunca soube o nome, morreu no dia seguinte ao tomar uma pinga de fundo-de-quintal contaminada com um produto químico. Foi encontrado vomitando sangue em frente ao bordéu no qual a mãe de Felizberto trabalhava.

O mais incrível nisso tudo é que ela não tinha a menor vergonha do seu passado e o dizia com a maior naturalidade a qualquer um que quisesse ouvir. Isso valeu ao meu amigo Feliz uma lista de apelidos inspirados na antiga atividade profissional de sua mãe, aos quais não convêm transcrever nesse relato.

Assim, passando a frequentar a casa de Felizberto, me tornei mais ainda “o seu amigo”. Ninguém entendia o porquê, e às vezes nem eu. Talvez tenha sido pena, mas também havia uma admiração pela resignação de Feliz frente ao seu azar. E não era uma simples resignação. Era uma resignação calma, seguida de uma esperança resistente. Feliz dizia que não era tão azarado, que um dia tudo daria certo para ele. Realmente era difícil acreditar que alguém pudesse ser tão azarado durante toda a vida. Infelizmente foi o que pude comprovar- e Felizberto também, para seu azar.

Eu pude perceber uma das manifestações da cruel fortuna de meu amigo quando passei a acompanhá-lo pelas ruas. Não havia uma rua ou esquina em que algo não acontecesse a ele e somente a ele. Hora, era um buraco em que ele tropeçava e torcia o pé, outra hora era um carro que passava numa poça de água e lhe molhava toda a roupa. Até mesmo parado ele não estava livre. Quantas vezes não vi o mesmo cachorro, um dos vira-latas do nosso bairro, aliviar sua bexiga na perna coxa do Feliz. O meu amigo apenas esboçava um palavrão e a triste expressão- “de novo!”

Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato dos pés de Felizberto sempre irem de encontro a algum material orgânico proveniente dos intestinos humanos ou animais espalhados pelas vias de tráfego. Isso lhe valeu mais um apelido, além do irônico “Feliz”, que lhe seguiria por toda a sua breve e sofrida vida. Todos passaram a denominá-lo Felizberto pisa-merda. Parece que esse apelido o feria profundamente, apesar de ele não demonstrar. Quando passou a ser chamado assim pelos cruéis meninos da escola, era possível perceber uma ponta de tristeza em seus olhos, o que ele tentava disfarçar com um meio sorriso cheio de dor.

Felizberto conversava muito sobre todos os assuntos. Passei a ser confidente de seus sonhos. E como ele sonhava! Ele queria terminar os estudos, entrar em uma universidade e se graduar doutor em medicina. Eu ficava imaginando como os pacientes encarariam um médico vesgo, coxo e banguela. Mas eu tentava ser otimista em meus pensamentos, pois com a ajuda da tecnologia esses problemas poderiam ser sanados. O que eu não acreditava era como ele iria se formar se era azarado até mesmo nos estudos. 

Não digo que ele era burro ou um mau aluno, muito pelo contrário, ele era inteligentíssimo e muito aplicado. Digo azarado mesmo. Felizberto era sempre o que mais estudava, mas quando chegava o dia da prova, algo sempre acontecia. Às vezes se atrasava por algum motivo e as professoras não lhe repetiam o exame. Assim como os alunos, as professoras não gostavam dele, nenhuma nunca gostou. Outras vezes, ele ficava tão nervoso que não conseguia se lembrar de nada que estudara durante toda a semana, ou então, sem querer, marcava a opção errada e só se lembrava depois que o teste já estava entregue. Não era raro sua prova sumir, ele reclamar com a professora, com a diretoria e nada ser resolvido. Nem mesmo minhas tentativas de ajudá-lo surtiam efeito. E assim, ele ia repetindo ano após ano a mesma quarta série. E com isso, após um ano, tivemos que nos separar na escola. Porém, nossa amizade estava consolidada e eu estava decidido a não abandoná-lo, mesmo com medo daquele azar acabar se voltando contra mim também.

Além do seu fracassado sonho estudantil, Felizberto também queria trabalhar. Uma vez ele me disse que não precisava, pois um tio distante lhe enviava mensalmente uma boa quantia em dinheiro. Achei que era delírio do Feliz, pois ele vivia miseravelmente com sua mãe e não havia nenhum vestígio de dinheiro algum enviado para ele. Mais tarde descobri que Felizberto falava a verdade, mas não vamos nos adiantar. É preciso seguir linearmente, para perceber o quanto o destino castigava meu sofrido amigo dia após dia. Como ia dizendo, ele queria trabalhar. E até que ele tentou. Seu primeiro emprego foi como entregador de pão, mas devido ao seu defeito físico era impossível guiar a bicicleta sem cair de dez em dez metros. O padeiro descontava de seu salário todos os pães que se perdiam com as quedas. Resultado: foi preciso uma semana de trabalhos extras para indenizar a padaria. Porém, o padeiro desistiu da punição, pois eram tantos copos e pratos quebrados durante o trabalho que Felizberto precisava sempre trabalhar uma semana a mais para cobrir o prejuízo da semana anterior e assim por diante, ininterruptamente. Houve outras tentativas de trabalho que dariam um livro inteiro de gargalhadas para os leitores insensíveis. Em respeito ao meu finado amigo, elas serão suprimidas.

Felizberto, apesar de todas as suas limitações, não se rendia e arriscou-se até a amar. Já que ele não tinha sorte nos negócios quem sabe não a teria no amor. Terrível engano. Primeiramente porque ele resolveu se apaixonar pela garota mais assediada pelos rapazes do bairro. Com seus hormônios aflorados pela idade, Felizberto não se constrangeu em declarar seu amor à Sandrinha, a quem nem mesmo eu ousava me aproximar. A única coisa que Feliz conseguiu de Sandrinha foi um olhar de escárnio seguido de um incontrolável acesso de risos. E para piorar, a cruel menina espalhou para todo mundo a ousadia de Felizberto. Meu amigo ficou arrasado por meses. Foi assim com a Sandrinha, com a Bel, com a Elisabete, com a Joana, com a Loirinha, com a Berenice, etc e etc.

Foi após uma dessas desilusões amorosas que Felizberto me falou pela primeira vez sobre a morte. Ele dizia que morrer talvez fosse bom e me fez fazer-lhe uma promessa. Se ele morresse antes de mim, eu deveria espalhar sementes de rosa vermelha sobre seu túmulo. Não rosas prontas, crescidas, apenas as sementes. Ele queria que as rosas crescessem aos poucos e lentamente fossem cobrindo seu túmulo.

Um dia, em um de seus acessos de alegria repentina, Felizberto me chamou em casa e disse que tinha algo importante a fazer. Fomos pela rua, ele com seus tropeços, quedas e pisadas em excrementos habituais. Chegamos à uma lotérica. Eu não acreditava no que estava vendo. Apesar de toda a sua urucubaca, Felizberto comprou um único bilhete de loteria com uma sequência de números improvável de se ganhar e para piorar o prêmio estava acumulado e tivemos que enfrentar uma enorme fila onde muitos apostadores compravam cinco, dez, vinte bilhetes de uma vez. Felizberto saiu pela rua sorridente, com os olhos brilhando e dizendo: “esse dinheiro será para realizar um velho sonho.” Fiquei triste ao ver tamanha ingenuidade de meu amigo, mas não lhe queria estragar a felicidade momentânea.

Não pude acreditar quando o resultado saiu. Felizberto estava bilionário como único ganhador do prêmio acumulado. Corri até sua casa. Nos abraçamos e pulamos de alegria. Era a primeira vez que Felizberto tinha sorte em alguma coisa. E que sorte! Parecia que toda a sorte que não tivera em sua vida havia se acumulado e agora transbordava de uma vez, concentrada naquela única e improvável sequência de números que o tornava rico. Ficamos muito felizes, finalmente tudo iria mudar. A mãe de Felizberto ficou de boca aberta, parada, com os olhos brilhando de cobiça ao saber da notícia. Aconselhei Felizberto a não confiar em sua mãe e em mais ninguém. Ele e eu erámos capazes de administrar aquele dinheiro. Ele não precisava da ajuda daqueles que sempre o desprezaram. Feliz, mesmo triste, concordou. Era difícil para ele não confiar na integridade das pessoas, tamanha sua inocência.

A primeira coisa que aconselhei Felizberto a fazer com sua fortuna foi cuidar de si mesmo. Com a ajuda da medicina e da tecnologia era possível consertar ou pelo menos minimizar seus defeitos físicos. Felizberto então encaminhou-se ao melhor médico particular do país. Fez vários exames e aguardou ansiosamente para começar as cirurgias. Nunca me esquecerei da expressão de dor no olhar de Feliz naquela manhã de domingo ao bater na porta da minha casa. Ele segurava os resultados dos exames e foi entrando e sentando no sofá sem dizer uma palavra. “Veja isto”. Disse ele me entregando o laudo médico. Felizberto estava com um câncer já em estado avançado de metástase. Além disso, era necessária urgentemente uma transfusão dos dois rins e do fígado, pois esses seus órgãos estavam a um passo de falir. O médico dava a Felizberto o prazo máximo de uma semana de vida. O mais incrível nisso tudo e o que mais me chocou foi o fato de ele nunca ter apresentado nenhum sintoma, nem do câncer nem da ineficiência de seus órgãos condenados. Somente naquele momento, depois da maior felicidade que ele conseguiu ter na vida é que aquela trágica notícia chegava. Oh, meu desgraçado amigo. Como sofri naqueles dias por você.

Após aquela notícia sugeri a Felizberto que aproveitasse os dias que lhe restavam. Ele poderia viajar, se divertir, fazer tudo o que sempre quis. Felizberto não concordou. Ficou em sua humilde casa. Triste, esperando o golpe final do destino. Eu ia lhe visitar todos os dias e creio que essas visitas foram os últimos momentos de felicidade de Felizberto.

Quando os efeitos de sua doença começaram a se manifestar, Felizberto me entregou um papel e disse que era seu testamento. O documento deveria ser aberto somente após sua morte. E assim o fiz.

Felizberto foi enterrado em uma vala comum em um cemitério público, pois eu também era pobre e não consegui ajuda para dar-lhe uma sepultura digna. Ele não deixou nenhum dinheiro disponível para seus gastos funerários. Tudo o que ele tinha estava agora em seu testamento.

A mãe de Felizberto estava excitada durante a leitura do documento. Porém, ficou decepcionada. Felizberto deixara toda a sua fortuna para uma instituição de deficientes físicos que estava prestes a fechar as portas por falta de verba.

Sua mãe o amaldiçoou. Durante seu acesso histérico disse coisas que eu já suspeitava mas não havia como provar. Ela gritava que agora não teria mais aquela “miséria de dinheiro” que o tio de Felizberto enviava todo mês. Durante todos aqueles anos, a megera roubava o dinheiro que era destinado a Feliz pelo seu tio e gastava com não-sei-o-quê. O que eu sabia era que Felizberto nunca foi beneficiado com aquele dinheiro.

Eu era o único que ia visitar Felizberto no pobre cemitério onde ele havia sido enterrado. Depois de algumas semanas ninguém mais se lembrava do Felizberto-pisa-merda. Então um dia me lembrei da promessa que havia feito a ele. Corri a uma floricultura, comprei sementes de rosa vermelha e espalhei pelo seu túmulo. 

Tive que viajar a trabalho e só retornei vários meses depois. Uma das primeiras coisas que fiz foi retornar ao túmulo do meu amigo. Vocês não imaginam minha surpresa ao ver seu túmulo coberto de cravos brancos. Só então me lembrei de um trecho da conversa que tive com Felizberto sobre seu desejo de ter o túmulo coberto de rosas e que eu incrivelmente havia esquecido. Felizberto havia me dito que era alérgico a cravos brancos. Vocês não imaginam a decepção que tive comigo mesmo. Não me lembrava disso e consequentemente não conferi as sementes antes de comprar, confiando nas palavras da vendedora. O meu esquecimento foi o último golpe do azar no trágico destino de Feliz.






Sinfonia dolorosa

12 de mai. de 2014














O ritmo das lágrimas 
goteja em meus ouvidos.
A sinfonia dissonante
me toca em sustenidos.
Sou instrumento grave
gravemente ferido
ressoando cantos de mim.


O Prisioneiro- parte final

8 de mai. de 2014

A Liberdade?

















Ele finalmente estava livre? 

Sem truques, sem vendas, sem algemas ou correntes. Livre de qualquer prisão: corporal, intelectual ou psíquica. Agora ele conhecia outra realidade sobre si mesmo. E percebeu que não precisava abandonar seu corpo para ser livre, pois a verdadeira prisão era íntima e interior e o acompanharia em qualquer lugar em que estivesse. O verdadeiro cárcere era ser prisioneiro de si mesmo. 

Ele percebeu que em  qualquer lugar poderia ser livre, até mesmo em suas antigas prisões. Bastava entrar no fundo do seu ser e conhecer os detalhes de si mesmo, saber que era incompleto e que caminhava sempre em direção ao futuro. Ele sorriu perante  o estranho paradoxo. Ele era seu próprio carcereiro. 

A chave para sua prisão esteve sempre ao seu alcance e ele nunca viu.



O Prisioneiro- parte 5

28 de abr. de 2014


A Prisão do Espírito












Ao se dar conta de seu estado, o prisioneiro desejou ser algo mais do que aquilo. Se ele não era seu corpo, nem seus pensamentos, o que ele poderia ser? Ele imaginou que poderia haver uma essência, e que essa essência poderia ser livre algum dia. De certa forma já haviam lhe prometido a liberdade, embora eles a chamassem por outro nome. Agora, que estava acordado, ele não conseguia entender esse paradoxo. Para se libertar era preciso estar preso às regras.

Foi-lhe ensinado, por forma de enigmas, que todos estavam presos na grande prisão pelo mesmo crime, que todos foram julgados pelo mesmo juiz, condenados pelo mesmo júri, mas que somente poucos se libertariam. Foi-lhe ensinado, também através de enigmas, que corpo e mente jamais poderiam se libertar. Somente a essência teria esse destino mas era preciso seguir cegamente as instruções do grande diretor do presídio. Porém, o prisioneiro não sabia ao certo se o diretor existia ou não. Como então poderiam ser livres algum dia? Do que adiantava seguir tão rígidas normas? Essa loucura precisava ter um fim.

O prisioneiro tentou libertar a alma de seus companheiros, livrando-os de tão ridícula ignorância. A reação foi a mais violenta possível. Como ele poderia querer os tirar a maior esperança de liberdade que possuíam? (Embora eles nem soubessem que estavam presos). Eles tinham fé no administrador de suas vidas. Uma instituição tão grande não poderia funcionar sem um diretor. Isso era inconcebível.

Como não podia libertá-los de sua suposta ilusão, afinal de contas o prisioneiro tinha dúvidas até de suas próprias dúvidas, ele passou a procurar meios de libertar sua própria essência, embora ele mesmo tivesse dúvidas sobre sua existência. Pelo menos sobre algo ele já havia se conformado. O corpo jamais poderia sair daquele presídio. Ele teria que se conformar em acreditar de que um dia talvez sua essência se libertasse.

Então, aos poucos, a cela que era o invólucro de seus pensamentos foi se enfraquecendo, possibilitando a saída do prisioneiro. Ele finalmente saberia como era a liberdade.

Continua...

O Prisioneiro- parte 4

7 de abr. de 2014










A Prisão da Mente

E ele que se orgulhava tanto de sua racionalidade! Ele julgava conhecer toda a prisão a sua volta até os mínimos detalhes. Tolo! Ele nem ao menos sabia que estava preso. O prisioneiro não podia confiar em seus conhecimentos. Agora que estava desperto, ele via que tudo o que aprendera era para mantê-lo sobre controle. Tudo parecia ser guiado, como se fosse para a manutenção de um segredo.

Então ele tentou se recordar de quando tudo havia começado, pois ele imaginava que em determinado momento de sua vida, sua mente foi aprisionada. A primeira lembrança que ele tinha era a de seus antigos guardiões, aos quais ele aprendera a chamar por outros nomes. Naquela época sua mente já estava aprisionada a regras, mas ele sentia que muito antes disso ela já era prisioneira. Porque tanta injustiça? Já não bastava ele estar preso corporalmente? A cada dia de sua pena, sua mente era aprisionada mais e mais a regras físicas e sociais. 

Agora que ele ansiava pela liberdade, pôde perceber que até mesmo seus sentimentos eram uma forma de aprisionamento, uma forma de controle. Ele lembrou-se da primeira vez em que sentiu amor. (Ou será que ele tinha sido induzido a sentir)? Ele amou uma prisioneira. Naquela época ele não sabia que estava encarcerado e tampouco que todos à sua volta também estavam. Ele sentiu-se imensamente feliz com aquela sensação, embora às vezes a dor e a tristeza, as quais ele já sabia dar nome, viessem em companhia do amor que ele sentia (ou julgava sentir).

Primeiro ele amou a cela da prisioneira. Era um corpo diferente do seu. Uma cela que atraía a sua de uma maneira quase incontrolável. Depois ele amou a mente da prisioneira e finalmente o espírito. Como ela também estava alheia à sua situação, logo os dois caíram na armadilha do carrasco oculto. Juntos, formaram outros prisioneiros. Somente agora, livre de sua venda psíquica, ele pôde encarar a dura realidade. O amor era um artifício para a produção de novos prisioneiros. Através dos próprios detentos, novos encarcerados entravam para a grande prisão.

Aquilo precisava acabar. Sua mente ansiava por liberdade. Seus pensamentos queriam voar. Ele tentou libertar a mente dos outros prisioneiros. Mentes presas a um mundo de fantasia. Porém ele falhou. Todos chegaram à conclusão de que ele havia enlouquecido. O prisioneiro foi espancado e humilhado por todos.

Quando ele percebeu que não podia libertá-los da mentira, o prisioneiro dedicou-se a lutar pela liberdade de sua própria mente. Foi com grande horror que ele descobriu que sua mente também era prisioneira em seu corpo, o invólucro de seus pensamentos, sua cela.

Seus pensamentos não poderiam se libertar se ele próprio não se libertasse da prisão infinita. E isso o desanimou. Ele só podia esperar por justiça. Seria o tempo um juiz justo?

Aos poucos sua cela foi enfraquecendo e o prisioneiro pôde sair sem culpa. Mas seus pensamentos teriam ido com ele?

Continua...

O Prisioneiro- parte 3

21 de mar. de 2014
















A Prisão do Corpo


O prisioneiro não olhava mais para a prisão como se fosse sua casa. O teto azul e branco ainda lhe parecia bonito, mas agora ele percebia o quanto era inatingível. Ele percebeu que estava preso àquele chão, no qual tantas vezes brincara.

Ele observou o invólucro de seus pensamentos, preso naquele presídio disfarçado de casa. Observou e ficou aterrorizado com sua cegueira. Ele estava preso a ações que não poderia interromper. Ele necessitava se entregar às suas limitações. Ele era fraco. O prisioneiro finalmente prestou atenção às suas correntes.

Foi com grande horror que ele se deu conta da mais terrível verdade. Ele não estava só. Todos estavam presos. Seus antigos guardiões, seus aprendizes, todos os que ele conhecia e os que ele não conhecia. Eram todos prisioneiros.

Agora a cada observação ele recebia uma nova revelação. Ele notou que nenhum dos prisioneiros estava ciente de sua prisão, assim como ele anteriormente. Consciente, era mais fácil pensar. Será que todos tinham sido presos arbitrariamente? Ou apenas desconheciam seus crimes? Isto não podia continuar. Era necessário acordar os outros do seu sono de ignorância. Ele os lideraria em uma rebelião em busca da liberdade. Era necessário encarar o diretor da prisão de frente e exigir uma explicação.

Mas foi grande a sua decepção ao descobrir que ninguém queria ser libertado. Os prisioneiros haviam se acostumado tanto à prisão que já não conseguiam enxergar as correntes em suas mãos. Para eles, ele era louco e perigoso. O prisioneiro jamais encontrou o diretor do presídio e acabou se convencendo de que ele não existia.

Somente nesse instante, quando parou de olhar para fora e se concentrou em seu interior, ele percebeu que ele próprio era seu carcereiro. Ele olhou para suas mãos traidoras e viu mais uma face da verdade. O seu corpo, invólucro dos seus pensamentos, era sua cela. Todos os prisioneiros andavam encarcerados dentro de si próprios, presos às suas celas ambulantes. Até mesmo seus corpos serviam ao sistema que os mantinham presos.


Todos os prisioneiros agora estavam contra ele. Espancavam-no e o insultavam o tempo todo. Cansado de tentar ajudá-los a enxergar a verdade, o infeliz prisioneiro dedicou-se a conseguir sua própria liberdade. Porém parecia impossível provar sua inocência. A única saída seria a fuga, mas seria muito doloroso e uma demonstração de culpa. Então o prisioneiro esperou. Aos poucos sua cela foi enfraquecendo e ele pôde sair. 

Teria ele conseguido a liberdade?

Continua...

O Prisioneiro- parte 2

2 de mar. de 2014















A segunda prisão


A nova prisão era um enorme presídio. Como antes, o prisioneiro ainda não tinha percepção de seu estado. Já não se lembrava de sua antiga prisão. Vivia um dia após o outro e parecia ser feliz. Foi-lhe ensinado a dar nome às coisas, e rapidamente ele já estava familiarizado com seu novo cárcere.

Quantas sensações ele descobrira sem nem ao menos se lembrar da primeira vez que as tinha sentido. Ele já sabia dar nome a elas- dor, raiva, alegria, tristeza e uma que não estava totalmente desenvolvida nele: a dúvida.

Sem saber que era um prisioneiro, ele acabou deduzindo que era um aprendiz. Sentiu que era necessário se instruir para um dia abandonar seu status inferior e se tornar um comandante, alguém com autoridade, assim como seus guardiões.

Eram dois guardiões principais. Foi-lhe ensinado a chamá-los de pai e mãe. Ele os amava. Eles o protegiam e o orientavam dentro da prisão. Como ele os invejava! Eram perfeitos. Ele queria ser como eles. Também queria se tornar um guardião. Então ele ia todos os dias ao treinamento, ao qual chamavam de escola, trabalho, igreja e vários outros nomes. Lá conheceu vários outros aprendizes, com os mesmos sonhos, cegos à realidade, assim como ele, alheios ao fato de serem apenas prisioneiros. Alguns mais rebeldes do que os outros, mas no geral todos estavam como deveriam estar, ignorantes à verdade. Quando estavam nesses setores de treinamento da prisão, os prisioneiros eram monitorados por sub-guardiões. Eles eram responsáveis pelo doutrinamento dos aprendizes. Regras e disciplinas rígidas eram a base da formação dos prisioneiros, a qual o único objetivo era mantê-los prisioneiros.

O prisioneiro continuou aprendendo a ser prisioneiro. Em sua ilusão chegou a acreditar que era feliz. Mas havia uma sensação que não estava totalmente desenvolvida nele: a dúvida. Ele notou que havia algo mais além do que os olhos podiam captar. Alguma coisa oculta. Um mistério que o angustiava às vezes. Mas ele tinha feito tudo certo desde o começo, como seus guardiões queriam. O que poderia estar errado? Com certeza era apenas uma pequena falha nele mesmo. Algo que o impedia de atingir seus sonhos e que deveria ser eliminado.

Em certo ponto de sua condenação estava tudo correndo tão bem que ele já era considerado um novo guardião. Ele já tinha até seus próprios aprendizes, aos quais ensinou a chamá-lo de pai como o sistema prisional onde estava exigia. Ele os orientava como ele próprio havia sido orientado anteriormente.

Nesse momento de sua pena, o prisioneiro recebeu o maior castigo de toda sua existência. Uma maldição da qual jamais conseguiria se libertar. Talvez estimulada pela rotina de suas ações, sua observação se desenvolveu. E com ela seu sentimento de dúvida cresceu até se tornar incontrolável. Ele comera o fruto do conhecimento. Era como se finalmente o tivessem condenado à pena de morte. O prisioneiro estava para sempre amaldiçoado com a verdade.

Continua...

O Prisioneiro- parte 1

9 de jan. de 2014











“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer. Porque no dia em que o fizeres serás condenado a morrer”.


                                                                                               Gênesis 2,17

 

A primeira prisão

                                                                                   
Ele foi gerado em uma prisão, embora não tivesse consciência disso. No futuro ele não se lembraria de nada sobre aquele local, mas naquele momento ele sentia-se seguro e confortável, como se aquela prisão fizesse parte dele mesmo.

Só havia a escuridão, embora ele não tivesse consciência disso também, pois o prisioneiro não enxergava e, mesmo que enxergasse, ele não saberia dar nome à escuridão, porque ela estava ali desde o princípio confundindo-se com o ambiente e com ele mesmo. O local era morno e agradável. Na escuridão ele flutuava. Com sua percepção falha não era possível saber o que era em cima e o que era em baixo. Havia paredes macias que pareciam se mover. No futuro ele não se lembraria de nada daquilo, nem mesmo da estranha sensação de que tudo aquilo era ele mesmo.

Ele ouvia vozes. Não entendia o significado daqueles sons, nem sabia se eram dirigidos a ele. Apenas ouvia. Eram várias vozes, embora algumas fossem mais frequentes e justamente as que o agradavam mais. Muitas eram desconhecidas e o assustavam. Mas existia uma que era especial. Quando ele a ouvia, de certa forma sabia que ela estava se dirigindo a ele. Às vezes ele queria responder àquela doce voz que o agradava tanto, mas não era capaz de fazer isso.

Não era possível saber quando era dia ou quando era noite. Ele simplesmente dormia quando sentia sono. O prisioneiro não sentia fome nem sede. Seus dias eram tranquilos e ele apenas vivia um dia após o outro em sua doce prisão.

Então um dia algo estranho aconteceu. As paredes macias que o protegiam pareciam aos poucos se contrair. Era como se quisessem o expulsar. O prisioneiro ainda não enxergava, mas podia sentir que se aproximava de algo contrário à escuridão habitual. Ele nunca tinha sentido tanto medo. Ele reconhecia a voz que gritava. Era a mesma que antes o acalmava tão docemente. Ao mesmo tempo em que a voz se silenciava, ele se viu em um mundo completamente diferente. Ele sentia que era manuseado, ouvia vozes diferentes das habituais. E então, pela primeira vez, ouviu seu próprio som, ao mesmo tempo em que pôde ver pela primeira vez.

Tanto espaço, havia tanto espaço! E seres tão estranhos, vultos embaçados. O medo persistia. Alguma coisa penetrava em suas narinas, dando-lhe uma sensação de conforto e alívio. Ele não percebia que a partir daquele momento se tornaria escravo daquela ação. O aço frio e cortante o livrou de sua algema orgânica. O trauma estava completo.

O prisioneiro foi colocado ao lado da voz. Agora ela tinha feições e parecia o observar. Ele sentia-se seguro ao seu lado, como se de alguma forma estivesse dentro de sua antiga prisão novamente. Se pudesse escolher ele retornaria, pois ali havia muito espaço. Porém não existia retorno. Sua condenação havia apenas começado.


Continua...