Haicai-não-cai

26 de jun. de 2011
















O raio não cai
duas vezes
no mesmo haicai.



Orquidário

21 de jun. de 2011













Orquídeas no jardim:
Energias perfumadas,
Casulos de almas.


Círculo

19 de jun. de 2011















O início e o fim
enfim
se encontram.


Amorecido

2 de jun. de 2011




onde o amor mora
o ódio murmura
a dor recente
se ressente
quando o amor amora.
defende-se contra o ardor
que o peito sente
mas por dentro
a alma mente
quando o amor aflora.
uma demorada prece:
morra o amor
ou morra a hora
em que o amor amorece

Se...

4 de mai. de 2011



Se o espinho lhe machuca os dedos,
acaricie as pétalas da rosa.
Se o sol se pôr por completo,
desvende o segredo de cada sombra.

Se o futuro lhe parecer incerto,
acerte as contas com o presente.
Se sentires saudades demais,
feche seus olhos e pense.

Se algo lhe parecer ilusão,
aproveite as vantagens do absurdo.
Se não tens nem sequer um amor,
ama a todos no mundo.

Se não acreditas na dor,
feche as portas dos sonhos.
Se o gosto já não tem sabor,
Sinta o aroma com os olhos.

Se já não tens juventude,
sorria sempre com melancolia.
Se não és velho ainda,
corra em busca da sabedoria.

Se não lhe agrada o que é feio,
Não busque entender o que é belo.
Se não és capaz de chorar,
derrame lágrimas nos gestos.

Sociedade das formigas sem açucar

29 de abr. de 2011





Nós te fizemos forte!

Não te lembras como eras? Um fracote, sempre com medo de tudo. Desde criança; apanhava na escola, na rua, saco de pancadas por vocação. Mas nós te demos uma opção. A opção de ser forte, de se vingar!

Não é nada muito difícil...
Bastam alguns desejos repetidos periodicamente e pronto! É o começo da ascensão. Você já está pronto para usar a escada feita de pessoas. É só procurar o melhor ponto de apoio, normalmente o rosto é o melhor lugar para se pisar. Mas se a subida estiver difícil, o coração proporciona uma bela propulsão. Sei que te lembras quando tua mão se tornou forte o suficiente para esmagar. Tu nos deve isso, ingrato! Nós te demos um terno à prova de balas, uma maleta repleta de vidas as quais tu podes controlar como bem queiras.

Nós te fizemos forte, um vencedor!

E agora o que é isso que vemos em teu rosto?
É assim que nos paga?
Como te atreves a derramar uma lágrima?

O transeunte

6 de abr. de 2011











E aos poucos ele foi entrando na vida...
Sem perceber, sem questionar seu destino.
E surpreendeu-se, como se fosse a primeira vez
que estivesse acordado.
Tudo era bonito e camuflado.
Ele não via.

Caminhou preguiçosamente pela estrada florida
para retardar o fim do passeio.
Mas há caminhos que não vemos,
que parecem nos puxar
e nos tratar como uma piada.
Então entramos e nos perdemos
sempre.

E a nuvem se desfaz
E os olhos se abrem
derramando lágrimas presas.
E tudo o que vemos então
é um único caminho
o único que podemos seguir.

Reminiscências- parte final

3 de abr. de 2011










Está tudo terminado: nossa juventude, nossa amizade e a farsa desta reunião. O que nós estávamos pensando? Que o passado poderia voltar? Que nossos sonhos e ilusões ainda estivessem vivos? Estão mortos tanto quanto "ele". Mas se é assim, porque tenho medo? Por que os olhos inquisidores de Bete me perturbam?

Já estamos todos alcoolizados, prometendo não nos separar, continuar mantendo contato, fazendo um pacto de amizade como se fôssemos adolescentes. Não aguento mais isso! É um alívio quando pagamos a conta e começamos a nos despedir. Eu olho para todos. Por que sinto esse aperto no peito, como se essas pessoas fossem importantes para mim?

Eu só quero ir embora e fugir do passado, antes que a Bete me acuse de algo. Ela se despede de todos e eu também. Quero sair sem que seja preciso me aproximar dela.

- Roberto.

Eu me viro e vejo todos indo embora, ainda se cumprimentando. Bete é a única parada diante de mim, calma, com um sorriso triste nos lábios. Como ela está bonita! Não há mais como escapar. Se ela tem algo a me dizer, que diga!

- Sim, Bete.
- Roberto, você conversou tão pouco comigo hoje.
- Conversei pouco com todos.
- Você costumava falar mais. 
- Mas os tempos agora são outros. O passado não me interessa mais.

Ela se aproxima e me olha nos olhos.
- Mas a mim interessa.

Tento não parecer amedrontado e espero.
- Há algo que preciso te dizer há muito tempo mas que nunca tive coragem.

Não há mais como fugir, estou encurralado. Eu respiro enquanto os olhos dela me fulminam. Ela abre os lábios e eu fecho os olhos.

- Roberto, eu sempre te amei...
FIM

Reminiscências- parte 6

17 de mar. de 2011














O garçom surge para me salvar. Peço mais cervejas, mas não sei se é uma boa ideia. A cada rodada, o álcool deixa meus antigos amigos mais desinibidos, e as lembranças vêm à tona.

Mas eu preciso me desvencilhar das perguntas de Bete sobre nosso amigo ausente e talvez de outras também. Talvez eu não devesse levar tudo tão a sério, mas qual seria a reação deles se soubessem o que aconteceu realmente?

Bebo pouco para não me soltar. Bete está me irritando, olhando-me desse jeito. Ela não disfarça, os olhos brilham, a boca às vezes sorri levemente e às vezes fixa-se em um desenho sério nos lábios. Ela está muito atraente e se tornou perigosa. Até o final de nossa reunião, ela me dirá o que a está incomodando.

Ou pior, dirá a todos.

continua...

Reminiscências- parte 5

4 de mar. de 2011
 












- Vocês eram muito amigos, não é Roberto?

Eu temia essa pergunta, ainda mais de quem veio. Era a Bete de novo.

- Sim,- a resposta sai trêmula- éramos realmente muito amigos.

Acho que todos entenderam o tremor de minha voz como uma emoção afetiva e não nervosismo. Mas a Bete continua me olhando fixamente, com a sobrancelha arqueada. Não posso deixar de notar a boca carnuda. Ela ficou bonita. Não é mais a menininha sem graça de antigamente. Há uns dois anos ela começou a me enviar mensagens eletrônicas e me adicionou em alguns sites de relacionamento. Sempre me tratando com carinho, mas distante. Por que agora essa necessidade de reunir nossa antiga turma? Meus receios aumentam. Por que só agora? Será que ela havia descoberto algo? Se ela soubesse a verdade, eu preferia estar morto.

continua...