Múltipla escolha

29 de set. de 2010













A poesia é:

fuga
música
alegria
dor
insensatez
delírio
luta
ritmo
desejo
fardo
catarse
amor

ou

nenhuma das alternativas acima

Pensamentos filosóficos de uma folha

26 de set. de 2010













Para meu amigo Guilherme Castro

(Algo escrito há muito tempo)


Na próxima encarnação quero ser uma pessoa, um ser humano. Somente eles têm o privilégio de poderem ser felizes. Pelo o que eu saiba, nós, vegetais, não temos consciência da felicidade. Os humanos pelo menos podem tentar alcançá-la.

Não quero ser planta, nem um mero animal, quero ser uma pessoa. Quero sofrer todas as desilusões as quais elas estão sujeitas. Quero amar, sorrir, chorar, crescer com as quedas, me tornar sábio com a idade. Quero arriscar.

Sou apenas o nariz das plantas. As únicas sensações que tenho são o sol, a chuva e o vento que chegam até mim. Posso ser bonita e agradável aos olhos, mas estou presa para sempre ao mesmo galho. Não posso escolher meu caminho. Não posso desviar do sol ou da chuva quando eu quiser. As únicas coisas diferentes que podem acontecer em meu destino são um granizo me rasgar, uma criança me colher ou um passarinho me bicar. Os humanos escolhem seu caminho na medida do possível. Eles podem criar. Ah, como isso seria bom.

Se eu pudesse ser uma pessoa, me contentaria até em ficar triste. Pois estar triste é sinal de que se conhece a felicidade e ser um humano é poder partir em busca dela.
Sim, na próxima encarnação quero ser uma pessoa, um ser humano. Para não precisar que ninguém pense nem escreva por mim.

O dono do mundo

4 de set. de 2010

















E se dissessem:
“Vá, possuas o mundo!”
Ainda assim não saberia tê-lo.
Não caberia em minha mão,
não poderia retê-lo.
Pois o mundo é maior que o mundo.
As almas pesam
e os pensamentos.
Não poderia carregá-los em minhas costas,
já tenho muito peso.
Se eu tivesse o mundo,
devolveria-o a ele mesmo.

Último ato- cena única

30 de ago. de 2010















Não sou Romeu nem Hamlet
Nem trágico nem representável
Minhas palavras são secas e isentas de dramaticidade
Nunca tive graça alguma
Sou buritizeiro seco sem frutos de qualquer espécie
Minha foto é uma paisagem do cerrado
Meu romantismo vai até onde minha razão se impõe
E minha razão é minha inimiga
Aliada do tempo
Sou duro como um poema de Melo Neto
Estou entre Ramos e Rosa
Nem um nem outro
Decido o que minha indecisão decide
Às vezes enxergo o que imagino ser real
Às vezes enxergo apenas o que imagino
Ontem, o ontem aproximou-se e disse-me umas verdades
Que há muito tempo eu não queria ouvir
Fui obrigado a concordar com o sermão
As palavras fixaram-se em minha mente como um encosto
E elas sopram todos os dias em meu ouvido
O seu veneno de realidade
Nunca fui Macário e nem tampouco Fausto
O demônio nunca foi meu companheiro
Falta eloquência e verdade em minhas palavras
Meu paraíso não tem flores meu inferno não tem chamas
Mas às vezes gosto de gritar
Apenas para ouvir o silêncio em resposta
O que dizem de mim não é o que dizem de mim
E eu percebo o que não foi dito
O reflexo no espelho não me diz nada
Eu não sou a imagem de mim que penso ver
Eu não sou a personalidade que penso ter
Não sou por dentro nem por fora
Tenho acesso aos dois lados da notícia
O lado que é mentira
E a mentira que se tornou verdade
Por isso não enxergo nada à minha frente
Prefiro ver o interior
Onde a realidade está encarcerada com correntes cegas
Enferrujadas pelo tempo
Não sou Próspero nem Miranda
Minha tempestade vem sem que eu a invoque
Não vi apenas o mundo de Caliban
Nem tampouco Caliban no mundo
Termino o que faço não por vontade própria
Mas sim por que tudo precisa terminar
O fim é inevitável
Talvez não necessário
Mas como saber
Se agora é o fim
Apenas deixo como registro
As minhas verdades as quais eu próprio não acredito
E as possíveis definições vazias
De tudo o que eu não sou.

Presença da morte

16 de ago. de 2010













Retratos, teias de aranha.
Poeira, frestas diáfanas,
portas semi-abertas
( ou semi-fechadas)?
Nos retratos, olhos que olham pro nada.
Cheiro de flores, sem flores.
Sombras imóveis
silêncio
e no meio da sala
eu

Copla

18 de jun. de 2010











Escrevi um poema na areia.
O mar, exigente, apagou.
Pra que repetir o poema
Se o próprio mar não gostou!

Fugaz

11 de jun. de 2010












...mais um dia,
o tempo percorrerá seu curso,
cada depois se tornará um antes,
envelhecerei a cada segundo,
Percorreremos vários instantes em cada parte do mundo,
e a cada momento que o tempo propicia,
esperaremos, ansiosos e tristes,
por menos um dia...

The land of shattered dreams.

26 de mai. de 2010












When your own dreams wake
It's time to get rid the hope you take.
But while you don't fall asleep
Your dreams remain always deep.

A bela adormecida

22 de abr. de 2010












Triste, tímida, ingênua; ninguém acreditava que ela poderia ter aquele dom tão diverso à sua personalidade. No começo, foram apenas alguns versos que, por acaso, alguém a ouviu recitar. Mas a força da expressão e o sentimento colocado nas palavras levaram o ouvinte às lágrimas. Logo, a fama da moça se espalhou. Ninguém nunca ouvira antes poemas recitados daquela forma, retirando sensibilidade até mesmo dos corações mais duros. Era impossível ficar impassível perante a melodia poética de sua voz. Apelidaram-na de mulher-poesia, outros a chamavam de poesia-viva, pois era como se ela fosse a encarnação da arte poética. Os pequenos grupos que se reuniam para ouví-la recitar, aos poucos se transformaram em multidões. As recitações levavam as pessoas ao êxtase. Como em um ritual religioso, as almas eram tocadas e as lágrimas irrompiam.

Até que um dia, a mulher- poesia sumiu. As pessoas, sedentas pelas palavras que as extasiavam, chegaram ao desespero. Era como uma crise de abstinência; tremores, calafrios, choro compulsivo, suas vidas se transformaram em um caos. Resolveram então atenuar o sofrimento procurando um substituto às palavras sonoras. Encontraram-nas nos livros. Surpreenderam-se ao encontrar neles todas as poesias recitadas por sua diva. Liam tentando imitá-la. Aos poucos, descobriram que cada um tinha sua maneira própria de interpretar. A aflição foi diminuindo, descobriram que aquele paliativo poderia ser um bom substituto às suas necessidades. Montaram um templo; lá, reuniam-se para recitar poemas; a mulher-poesia foi elevada à categoria de Deusa. Ninguém nunca soube o que aconteceu a ela. Muitos diziam que aquela mulher nunca havia existido, outros diziam que ela havia realmente se transformado em versos e que agora habitava todos os poemas do mundo.

Caindo para sempre

20 de abr. de 2010










Ele sentou-se para descansar, pois estava cansado de brincar. Era criança, mas observador; notou quando uma folha desprendeu-se do galho mais alto da árvore e foi caindo vagarosamente rumo ao chão. Ele esperou a queda... mas a queda não veio. Por algum estranho motivo, a folha nunca chegava ao chão. O menino olhava atônito ao estranho fenômeno, esperando que a folha caísse e não jogasse por terra toda a sua razão, cultivada tão bem pelos adultos. Por todos os dias, meses e estações, ele esteve sentado ali, e a folha continuava caindo. Quando ele morreu, enterraram-no ao pé da árvore. Depois de muitos anos, muitos notaram que não havia uma folha sequer sobre o túmulo, mas ninguém percebeu a folha que insistentemente caía.