17 de mar. de 2009













Dentro de instantes, virarei o meu rosto
para aquele outro lado que há para ir.
Dentro de instantes, me calarei.
E o sonho será este ou aquele que deixei partir?

Ingratidão

4 de mar. de 2009












Musa ingrata, o que lhe peço é tão pouco:
Somente o gosto de fazer-te bela.
Não peço rimas nem estrofes cultas,
Meu culto é apenas a palavra certa.

Mas o meu ritmo sempre é traído
pelos meus versos tortos que me doem.
Meu esforço já nasce sempre falido,
E os poemas nascidos jamais se constroem.

Juízes 19

2 de mar. de 2009










..me sinto despedaçada a alma parece não ser mais parte de mim uma dor de profunda desilusão por ele ter entregado o meu corpo pela salvação do seu corpo procurei gritar por salvação estendendo as mãos aos céus sem forças para lutar pela vida possuída por algozes destroçados no espírito os sentimentos pisados por alguém que não tem importância a honra que não seja a nossa honra envergonhada é a casca do nosso corpo violado e sem vida pelo estupro vergonhoso do corpo e da mente são os desejos e o medo dos covardes é o desejo e a infâmia dos que temem e fingem não ouvir os gritos de quem estende as mãos por salvação na poeira do chão ensanguentado pelos pedaços de dignidade perdida sem direito ao direito de não ser entregue aos homens pela honra dos homens eu sinto a dor de ser dos homens a minha vida estendendo as mãos de sangue e lágrimas de desilusão profunda pela dor de não ser mais parte de mim se sente despedaçada me sinto..

Não sorria!

19 de fev. de 2009













Assim que abriu a porta do seu apartamento, João passou a ser filmado pela câmera do 6º andar. No elevador, foi filmado juntamente com outros moradores, que também sempre saíam naquele horário. Foi para o estacionamento. A câmera de segurança o filmou entrando em seu carro as 7:15 e, as 7:18, a câmera na portaria do prédio o filmou deixando o condomínio.
João passou devagar por um trecho monitorado por uma câmera contra excessos de velocidade. Antes de chegar ao trabalho, foi filmado pela câmera da padaria onde sempre tomava o seu café. No prédio onde trabalhava, foi filmado diversas vezes pelas câmeras de segurança, em vários ângulos, durante vários momentos do dia. A primeira câmera que o filmava quando entrava era a mesma que o filmava quando saía.
A câmera da portaria de seu prédio o filmou chegando em casa as 18:20, como de costume. A câmera do estacionamento registrou o momento em que ele deixou o carro. No elevador, a câmera o filmou assobiando tranquilamente até chegar ao 6º andar. A câmera de segurança no corredor o filmou entrando em casa exatamente as 18:29.
João assistia a uma reportagem no telejornal. A transmissão acontecia em um local próximo ao seu trabalho. Ele pensou: “Puxa, alguns minutos de atraso e eu teria aparecido na televisão. Por isso que é bom a gente sempre estar elegante.” E deu uma piscadinha para uma câmera imaginária.

Rosa verdadeira

17 de fev. de 2009












Regina amava Daniel. Porém, ele a via apenas como sua melhor amiga. E para piorar a situação, Daniel estava apaixonado por uma amiga de Regina e vivia pedindo para ela dar uma forcinha. “ Um drama típico de novela”, pensava ela.

Em um belo dia de primavera (era realmente um belo dia de primavera, não é apenas para dar clima à história), os dois estavam sentados em um banco no parque da cidade. Daniel finalmente fez uma pergunta relacionada à Regina e não à sua amiga. “Uh, demorou! Até que enfim ele reparou em mim.” Pensou ela, já cansada da cegueira do seu “grande amor”. Daniel perguntou se Regina já havia tido algum namorado antes. (Desculpem meu descaso, esqueci de dizer que os dois eram adolescentes. Assim a pergunta dele não parecerá idiota.)

Regina explicou que uma vez namorou um cara que ela gostava muito. Porém, um dia, ele a presenteou com uma rosa. depois disso, ela se desinteressou e terminou o namoro. “Como assim?” Perguntou Daniel sem entender. “Era uma rosa de plástico. Como alguém que ama pode dar uma rosa de plástico? É sinal de que o amor também é falso. Quem ama de verdade dá uma rosa verdadeira.” infelizmente, o papo terminou por aí. Daniel voltou a falar da outra e Regina voltou à sua tristeza habitual.

Mas algo estranho começou a acontecer com o rapaz. Ele não parava de pensar em Regina e no que ela lhe disse. O rosto da menina sempre aparecia na sua mente nas horas em que ele menos esperava. Fazia duas semanas que ele não a via, não conseguia contactá-la pelo celular nem por e-mail ou msn. Já estava decidido a ir procurá-la quando alguém bateu à porta. Era um carteiro com uma encomenda para Daniel. Junto com o embrulho, havia um bilhete de Regina. Ela havia se mudado com a família a uma semana, não escreveu o endereço de sua nova casa, a correspondência estava com o endereço antigo. Era um bilhete de despedida.

Daniel ficou abalado, entrou em casa sentindo um vazio crescendo dentro do seu peito, abriu o embrulho aos poucos, sem conseguir tirar a imagem de Regina de sua mente. Ao ver o que era, suas mãos tremeram. O cheiro doce espalhou-se vagarosamente pelo ar. Era uma rosa verdadeira.

O bem e/ é o mal

13 de fev. de 2009




Cubra
o
sol
e as sombras

sumirão

microconto

11 de fev. de 2009













Dois amigos conversam:

-Veja só essa imensidão! Às vezes fico imaginando como o mundo é vasto. Tudo funciona tão perfeitamente como se um ser inteligente estivesse por trás de tudo.

- Mas é justamente isso o que dizem, e vão mais além; dizem que o universo em que vivemos pode ser um enorme ser vivo.

- Você está brincando...

- Não! E dizem também que a nossa presença aqui afeta o equilíbrio orgânico da criatura, podendo levá-la até mesmo à morte.

- É difícil de acreditar. E se ele morresse? O que seria de nós?

- Não sei, mas dizem que existem milhões de universos vivos iguais a ele, todos habitados por seres iguais a nós.

- Bem, chega de tolices! Acabei de ver uma molécula de glicose prontinha para ser capturada.

E as duas bactérias saem, balançando seus flagelos.

Tinta etérea

9 de fev. de 2009











Não se deveria escrever no papel,
nem tampouco na tela de um computador,
as palavras que gostaríamos que lessem.
Deveríamos escrevê-las diretamente no coração de quem lê,
para que ali ficassem grudadas para sempre aos seus sentimentos.
Deveria-se escrever nas mentes e nas almas
dos que estão adormecidos;
ler alto o discurso camuflado
dos que não querem ser entendidos.
As palavras deveriam ser traçadas em sangue
e escritas com ferro em brasa,
para que, ao morrer, as levássemos conosco;
misturadas à nossa essência, encravadas em nossa alma.

Mercúrio

29 de dez. de 2008












O sol queima, como se estivesse a poucos quilômetros. Um menino corre pela estrada seca, levantando poeira em direção à luz que castiga. Ele é veloz. Seu nome é Herminho. O calor não o preocupa, ele parece estar acostumado ao suor que lhe escorre pelo rosto. Aquele é o único mundo que ele conhece; seco, quente, desolado.
Herminho não gosta de dar más notícias, mas os moradores da região acostumaram-se a tratá-lo como um mensageiro. E ali estava ele novamente, correndo em direção à casa de Dona Esperança para dar o recado. Como dizer a ela que estava tudo perdido?
Ele se aproxima com seus pezinhos magros cobertos de poeira. Dona Esperança espera à porta da casinha feita de barro. Ao vê-lo, seu coração dispara. Ela se agarra ao xale preto, cruzando as mãos sobre o crucifixo pendurado sobre seu peito. Herminho chega cabisbaixo, segurando o chapéu com ambas as mãos, sem ousar olhar nos olhos de Dona Esperança.
Eles não se falam, não é necessário nenhuma palavra. Uma lágrima sinuosa passeia pelo rosto da mulher, misturando-se ao suor que brota dos seus poros. A lágrima cai e o chão ressecado a absorve, vagarosamente, como se o sal daquela gota fosse o mais puro e adocicado mel.
OS PLANETAS


Vênus

19 de dez. de 2008













Quente! O calor do sexo a devora. Os gemidos e as contorções de prazer do seu parceiro são o seu maior gozo. Ele a aperta contra seu peito e sussurra seu nome, entrecortado pela respiração ofegante: " Dalva, Dalva!" Ah! como é bom ser desejada!
Mas isso não é suficiente. Todos precisam ser dela de corpo e alma. Ela olha nos olhos do macho dominado, esperando a resposta que todos deram, a resposta que a transformará em sua dona: Então ela faz a pergunta: " Você me ama?" O homem ofegante abre os lábios. Ela fecha os olhos esperando a doce palavra de submissão. Mas a resposta abre seus olhos violentamente como um vulcão: " Não!"
Nos dias seguintes, ela sente-se como se uma de suas faces estivesse voltada para o sol e a outra de costas para ele. Dias de calor insuportável no corpo e de frio desesperado na alma. Todos a amavam. Como alguém a quem dera tanto prazer poderia rejeitá-la daquele jeito? Ela o odiou com todas as suas forças. Maldito homem! Maldito desprezo!
Foi ao espelho. Observou seus olhos, seus lábios vermelhos, seu corpo de deusa. Era linda como a estrela da manhã. Tentou ver mais fundo, penetrou a própria alma , quebrou todos os escudos e chegou ao interior de seus próprios pensamentos.
Caiu ao chão, desesperada. Chorava compulsivamente com as mãos cobrindo o rosto. Ela sempre sentiu a necessidade de ser amada por todos. O orgulho e a vaidade alimentavam o fogo que queimava em seu interior. Agora, que estava só, descobriu a mais terrível e avassaladora verdade. Ela não se amava.
OS PLANETAS