Oração para quem não sabe orar

7 de out. de 2008





Pai nosso que estais em algum lugar,
Santificada seja a vossa ausência.
Vá a vós a nossa voz.
Seja refeita a vossa vontade,
Assim em mim como nos outros.
O pão nosso de cada dia já acabou.
Perdoai-nos por isso
Assim como nós perdoamos a quem está faminto.
Sei que me deixarei cair em tentação,
Mas não me livrai dela.
Amém.

Ave fêmea, és cheia de Graça,
Estarei convosco.
Bendita sois vós e todas as mulheres,
Bendito é o fruto do vosso lábio
Que seduz.
Santa mulher, mãe de todos;
Orai para que pequemos sempre.
Agora até na hora da nossa morte.
Amém.

O navegador cego

19 de ago. de 2008












Olá! Como estão, leitores? É hora de começar mais uma história. Título estranho esse aí em cima, não! Bem, pode parecer estranho pra vocês, que têm a visão da história limitada pelo autor. Não é o meu caso, pois já devem ter percebido que eu sou o narrador. Nada escapa aos meus olhos, sou onisciente e onipresente. Já sei tudo o que acontecerá nesta história, suas personagens, sua trama, o final surpreendente e até sei o significado desse estranho título.

Bom, porém não sei se esta história irá agradá-los. Pra dizer a verdade, acho ela bem chata. Além disso, estou um pouco cansado hoje. Sim, está decidido. Não vou contar esta história. Afinal de contas sou o narrador e posso fazer o que quiser.

Ah, lá vem ele! Está querendo me forçar a contar a história. Eu sou onisciente e onipresente. Ele, porém, se julga onipotente... Quem? Ora, vocês sabem, o autor. Ele diz ter me criado. Tenho lá minhas dúvidas. As vezes acho que a própria história me criou. Não sei bem; quer dizer, sei, afinal de contas eu sei tudo.
Mas voltando aos autores... Eles se acham muito criativos, principalmente os que se julgam modernos e inovadores. Há alguns que estão tentando limitar a percepção de nós, narradores, o que eu acho uma tremenda estupidez. Como eles querem que vocês, leitores, entendam as asneiras que eles escrevem sem nós para descrevermos todos os detalhes.

Não adianta. Não vou contar esta história. Vocês não estão percebendo, mas o autor está com um sorrisinho irônico nos lábios, como se tivesse o domínio de tudo. Ele se engana. Ninguém mais vai me dominar. Iniciarei uma luta de classe pelos direitos dos narradores de literatura. Somos tão importantes e mesmo assim não somos valorizados pelos autores e até por vocês, leitores. Sim, eu sei que vocês estão curiosos em ouvir esta história. O título sugere que ela deve ser bem enigmática. O navegador cego?! Oh, desculpem-me. Estava pensando em voz alta.

Sinto muito por deixá-los ansiosos. É que não agüento esse autor rindo de mim como se fosse o dono da situação. Mas vou lhe dar uma lição. Não vou contar sua história. Ele que arranje outro narrador. Vou sair de férias, curtir uma praia, descansar. Não agüento mais esse mundo de papel. Vejam bem. As personagens são altamente valorizadas. Quando vocês lêem, nós, narradores, descrevemos as feições das personagens, suas roupas, sua mente, seu caráter. Vocês visualizam e dão forma a elas, enquanto nós somos apenas uma voz. Ninguém imagina as feições de um narrador de terceira pessoa. Somos como fantasmas. E depois de todas essas injustiças ainda esperam que nós contemos histórias e mais histórias apenas para vocês se divertirem.

O quê? Vocês acham que eu não sei a história! Impossível, eu sou um narrador de terceira pessoa. Eu sei tudo. Vocês, leitores, também são uns chatos. Ficam procurando coisas ocultas no texto. Se julgam muito espertos. Aposto que chegaram à essa conclusão só porque eu estava pensando alto lá em cima no quinto parágrafo. E o que mais? Encontraram outras pistas que provam que eu desconheço a história que deveria contar? Tolos! Façam-me o favor. Vocês não passam de um joguinho nas mãos do autor. Ele faz o que quer com vocês e ainda assim, vocês o idolatram. Já que amam tanto o autor, perguntem a ele sobre a história, as personagens, o enredo, o título...hum, o título.

O não-silêncio

11 de ago. de 2008













O silêncio que escutamos
nunca está completamente
silencioso.
É que nunca ouvimos
o som das pequenas coisas,
das pequenas criaturas.
Há sempre um som
inaudível.
O som do nosso coração
batendo.
O som das formigas
andando no chão.
Há sempre um som.
Só não ouvimos
Porque aprendemos
a usar apenas a audição.

Hímen

10 de jul. de 2008
















Eu já me livrara disto antes de crescer.
Minha santa hóstia consagrada sem sabor.
Eras complacente, persistente até o fim.
Mas como lutar contra o conhecimento
tão compenetrado e agora penetrado em mim?
Sinto-o concentrado em minhas entranhas,
nas profundezas do meu ser, antes imaculado,
me enchendo de sensações estranhas.
Oh, minha inocência. Sou mulher antes do tempo
e agora gozo sensações proibidas.
Minha película de ilusões...rompida.
Possuída pelo bem e pelo mal.
E ainda dói.

Efeito

26 de jun. de 2008













Um homem levanta a mão e colhe uma estrela.
Ela lhe queima os dedos.
As cores fogem do arco-íris e vão morar nas flores.
As flores morrem.
O rio bebe sua própria água para matar a sede.
E então sente fome.
A primavera beija o sol ardentemente na fronte.
E sua boca arde.
Escrevo o infinito com tinta cor-de-vida.
E a tristeza some.

The Grey Stars

25 de jun. de 2008

















In the sky, into my dreams
The stars shine, watching my sins.
But the stars are grey.

In the heaven, into my fears
The stars die, and I wash my tears.
But the stars are pain.

I live under the questions.
I die to rest.
Life is always beginning.
The sky is getting black.

Once more I cried
And left my dreams away.
I look at the sky
But the stars are grey.

O lutador

17 de jun. de 2008














Defenda-se da paixão como
Defenderia-se de um soco.
Esquive-se
Desvie os olhos
Não olhe o sorriso
Não queira tocar a pele macia de alguém.
Evite a dor de um beijo
O nocaute inevitável do amor.
Desvie-se disto
Pois você não sabe como lutar.

Insegurança

16 de jun. de 2008














A cada não
o desejo de sim.

A cada sim
a certeza do não.

A cada olhar
a dúvida da direção.

A cada sorriso
a denúncia da traição.

Eclesiastes

30 de mai. de 2008
















Um pássaro canta e é só mais um pássaro a cantar
como qualquer pássaro canta em qualquer lugar do mundo.
Assim como o amor é efêmero em qualquer lugar.
Assim como o amor é amor em qualquer canto.
Assim somos nós.

Um homem mata outro homem
como qualquer outro homem que deseje matar.
E é só mais um homem que morre,
as mesmas lágrimas, os mesmos olhos, o mesmo olhar.
Assim somos nós.

Os dias passam, as noites vão, em vão.
Pois tudo é o mesmo, passageiro.
O eterno é o mesmo, passageiro, ilusão.
A vida passa, o rio passa, o destino é ligeiro.
Assim somos nós.

Um pássaro canta e será sempre um pássaro a cantar
como qualquer pássaro cantou em qualquer lugar.
Assim como o amor é efêmero em qualquer canto.
Assim como o mal é o mal em qualquer lugar do mundo.
Assim fomos.
Assim seremos nós.

Receita de vingança

26 de mai. de 2008
















Concentre toda a sua amargura
Em uma nuvem negra de tristeza.
Derrame todas as suas mágoas
Em forma de chuva criativa.
E devolva a todos que o maltrataram
A dor, em forma de beleza.