Reminiscências- parte 2

2 de fev. de 2011














Foi a Bete quem mandou os e-mails nos convidando para uma reunião entre os antigos amigos. Mas será que podemos realmente nos chamar assim? Amigos! Eles ficaram sepultados no meu passado: o sorriso de Clara, o olhar perturbador de Douglas, a gargalhada de Fernandinha, a agitação de Felipe e... o mistério de Bete. Nunca consegui decifrá-la. O que ela sabia sobre o nosso passado? Por que ela não tira os olhos de mim? Eu não devia ter vindo. Talvez eu só não esteja mais incomodado do que o Felipe.

- Não poderei ficar por muito tempo. Vocês sabem...negócios.
- Nem parece o Felipe falando. Nunca imaginei ver você de terno.
- As coisas mudam, Clara. Você também mudou, embora não perceba.

Os dois se olham tão profundamente que Douglas fica incomodado. Será que ele sabia? Duvido que ela tenha contado. Ela me disse que nunca contaria. Mas Douglas sempre desconfiou, eu sei disso.
-Por que tão calado, Roberto?
É Bete quem me pergunta. Não sei se estou preparado para responder.

continua...

Reminiscências- parte 1

21 de jan. de 2011














Eu tinha quase certeza de que me arrependeria deste encontro. Cada rosto me traz diferentes lembranças, é como retornar ao passado. Olho para os olhos de Clara, adornados por um óculos estilo anos setenta- ela sempre foi a mais riponga. Ao lado dela, Douglas, o intelectual. Na época não imaginávamos que as discussões filosóficas dos dois terminariam em um casamento de mais de vinte anos. Ele segura a mão dela de leve, os olhos dele continuam incrédulos, e o sorriso de Clara continua lindo e calmo.

Bete é a negra do grupo, os cabelos encaracolados estão amarrados em um estilo africano. Ela não tem mais o ar ingênuo de antes e me olha como se estivesse revivendo o passado também.

Felipe está incomodado em seu terno escuro, olha para os lados e para o celular a todo instante. Parece um fardo estar entre os antigos colegas. E pensar que era o mais politizado de todos. Agora é apenas mais um que se rendeu ao sistema.

A Fernandinha ri o tempo todo e faz questão de relembrar os momentos mais fúteis de nosso passado. Ela não mudou nada.

E eu... como será que me veem hoje, quase vinte anos depois?

continua...

Meu doce cerrado

18 de jan. de 2011












Meu doce cerrado
Tão cinza e soturno
De cantos ocultos
De mato fechado


Meu doce cerrado
De clima noturno
Eu colho teus frutos
Molhados de orvalho


Árvore tristonha
De galhos torcidos
Abro meus braços
Para estar ao seu lado


Divida tua dor
E eu divido contigo
Também minha dor
Meu doce cerrado.

Poema para o natal

13 de dez. de 2010













Perdoar o que um dia achamos imperdoável:
é o que nos faz melhores.
Ver o mundo com outros olhos,
o olhar filtrado pelo amor.
Sem rancor.
Sem ódio.
Ver que todas as pessoas são únicas.
Que caminhamos todos em direção ao bem.
Perceber isso é perceber também que avançamos.
É perceber que a vida tem um sentido.
E que um dia o encontraremos,
quando chegarmos ao fim do caminho.

Anoitecer

6 de dez. de 2010



O sangue do sol se esvai no céu,
Sobre silenciosas sombras de azul.
Em seu seio silente, a tarde sente
a calma noite chegar.

O vento zune um som de brisa.
Sob os sons de sua dança,
A noite avança triste e cinza
E a tarde em suave tom descansa.

As flores dormem em cheiro doce
Como se fossem sonhos de princesas.
O odor de sono que a tarde trouxe
Esvai-se sob os signos das estrelas.

As fadas falam de flores belas.
A lua lança a luz do luar,
A cantar a vida, coisas eternas,
A tarde morre para depois retornar.

Caminho

1 de dez. de 2010












Dê-me uma luz
e eu encontrarei
a escuridão

Inutilidades

29 de nov. de 2010












Não quero escrever sobre a poesia
e nem sobre o amor
Não quero escrever sobre a alegria
e nem sobre a dor
Não quero escrever palavras
nem letras
Não quero escrever frases
nem sentenças
Não quero escrever sobre mim
e nem sobre ninguém
Não quero escrever sobre a morte
nem sobre a vida também
Não quero escrever sobre o passado
Não quero escrever sobre o imprevisível
Não quero prosa, não quero fatos
Não quero o dito nem o indizível
Não quero escrever sobre o tudo
nem sobre o nada
Não quero sentido
e nem sentir
Não quero não querer
e nem escrever
Isto que escrevi.

O vento

26 de nov. de 2010












O vento uivando no voo da voz
jogou meus versos na direção contrária da criação.
E zuniu e fodeu as imagens imaginadas.
Um vento voraz de apetite quente,
que inexplicavelmente come palavras.
De ondes vem, vento de fel?
Que sopra meu papel e minha inspiração?

Poema para colorir

21 de nov. de 2010

















É feito de branco
o momento da solidão.

Peccata mundi

18 de nov. de 2010














Pecados
Pesados
Pensados
Ou não
Perdoados
Esquecidos
Permitidos
Em vão
Pecados
Passados
Pousados
No chão
Pisados
Colhidos
Na palma
Da mão.